segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A rua onde morava o nome do padre Afonso Soares

O padre Afonso Soares estava aqui muito mal representado: a razão é que não dispúnhamos de um texto condigno. Escreveu-o agora o Prof. Fernando Souto e autorizou-nos a colocá-lo em linha, o que agradecemos. Fica aqui na mesma página do Conselheiro Abel Andrade, outro nome insigne das origens do Liceu.

Em Setembro de 2012 a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim aprovou, por unanimidade, a proposta de atribuição do nome de Manuel Lopes à então designada rua padre Afonso Soares.
Manifestei, em devido tempo, absoluta discordância com a referida decisão. Concordar com tal deliberação significava aceitar o saneamento e consequente apagamento público de um prestigiado jornalista, redator principal de a “Estrella Povoense”, primeiro diretor de “ O Comércio da Póvoa de Varzim”, político regenerador, vice-presidente da “Real Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários”, presidente da comissão encarregue de elaborar os primeiros Estatutos de “A Beneficente”, secretário da “Mesa Administrativa da Santa Casa da Misericórdia”, capelão da Igreja da Lapa, pároco da Matriz da Póvoa de Varzim e também um dos fundadores do Liceu, seu incansável professor e respeitado reitor.
Perante esta nova realidade e contrariamente ao que seria de esperar, não me apercebi de que alguma destas instituições tivesse levantado a sua voz em defesa da memória do padre Afonso Soares. Estranho silêncio, que a seu modo, também fala.
Não se pode esquecer que na “Representação” que a Câmara Municipal enviou a Sua Majestade o Rei D. Carlos, em Junho de 1904, a implorar a criação de um Liceu Nacional na Póvoa de Varzim, consta o nome do padre Afonso Soares como garantia segura para o sucesso do projecto.
O padre Afonso Soares conheceu e ultrapassou vicissitudes várias para organizar e instalar a nova instituição de ensino, motivadas pelo desfasamento entre as intenções políticas e a realidade económica do país e da autarquia local, cuja compreensão o levou a prescindir dos seus merecidos ordenados. Viveu num tempo, onde se evidenciaram as movimentações em defesa da manutenção do Liceu face às constantes e cíclicas ameaças de extinção. Sem este seu empenhamento cívico o Liceu jamais teria passado de um projeto, de uma intenção, ou, quando muito, de uma experiência de curta duração como aconteceu, à época, em diversas localidades do país.  
Ganha pois, mais sentido o testemunho do historiador Manuel Silva na revista “Póvoa de Varzim”, Dezembro de 1914, que cito:
“(…) luta tenaz e persistente teve-a para erguer o Instituto Municipal, onde já leccionava, a Liceu Nacional. A este grave e alto problema local dedicou esforços que outros logo poriam de parte! Um pouco mais de comodismo e de calculada indiferença da parte do Padre Afonso, e tudo teria sossobrado no “deixar ir” tão portuguez, tanto dos nossos hábitos”.
O ano de 1915, ano a seguir à morte do padre Afonso Soares, foi conturbado para o Liceu. Basta ter presente a nomeação, nesse ano, de três reitores, a agressão a um deles por parte dos alunos, a interdição e posterior levantamento da realização dos exames finais, a ameaça eminente de despejo do Colégio Povoense, que então ocupava, para ajuizar do que fora o seu génio e carisma: o homem certo no lugar certo.
Não tenho dúvidas de que foi o sentimento de reconhecimento e de gratidão a Manuel Lopes que moveu a Comissão Municipal de Toponímia a propor a alteração do nome da rua. Todavia, a materialização desse sentimento não pode diminuir ou apagar o nome de outra personalidade que, a seu modo e noutros contextos, apaixonadamente serviu a Póvoa de Varzim.
Poder-se-á invocar que, desta forma, aquela homenagem ganha um significado maior e evidente na ligação ao edifício da Biblioteca Municipal Rocha Peixoto, a que Manuel Lopes consagrou grande parte da sua vida. Mas por outro lado, importa aqui relevar que análogo propósito animou a Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, na reunião de 19 de janeiro de 1966, ao atribuir o nome do padre Afonso Soares à rua confinante a nascente com o Liceu, instituição que de forma persistente ajudou a fundar. Não vislumbro pois razões para revogar, agora, tão acertada e justa deliberação.
A verdade é que a placa de mármore que ostentava o nome do antigo Reitor do Liceu da Póvoa de Varzim, padre Afonso Soares, foi retirada do muro de vedação da atual Escola Secundária Eça de Queirós, em finais do mês de novembro de 2012. Quero crer que num futuro próximo a verei reposta numa rua prometida. Mas, para mim, professor da Escola Secundária Eça de Queirós, não será a mesma coisa, como sói dizer-se.
Termino com a indicação de que a sua anterior morada está assinalada e fixada nas páginas da “Toponímia da Póvoa de Varzim” do Dr. Jorge Barbosa, insigne médico e historiador poveiro. A esse itinerário podemos regressar sempre, na companhia da memória e da história do Liceu da Póvoa de Varzim.


O Padre Afonso Soares

Por Manuel Silva

Foi uma pena, foi um grave erro ter sido tão desconsiderada recentemente a notável figura do Pe. Afonso Soares. Quando se reparará a memória do seu notável nome que um sábio poveiro seu contemporâneo aqui exalta?

É para impressionar, dolorosa e profundamente, o passamento brusco dum companheiro das mais despreocupadas e risonhas quadras do passado! Há um não sei quê de nós próprios que desaparece também como que arrastado num turbilhão que passa desolador e implacável!
A morte do Padre Afonso – desse vulto tão popular – meão de corpo mas elevado de espírito – ocorrida num fim de tarde tempestuoso e arrepiante, desconsoladora e depressiva, marcou uma acontecimento cheio de tristeza nesta boa, nesta bela terra a que nós tanto e tanto queremos.
Como sucede sempre que um conhecido baqueia na arena desta cruciante luta que é a Vida, o Padre Afonso, apenas arrefecido, foi relembrado, entre saudades e preitos de justiça, nos traços principais e bem francamente lançados da sua existência; e então ressaltou, em luminosa nitidez, a figura do patriota às direitas, trabalhador estrénuo e desinteressado.
Sim. Pelejador da boa causa, o Padre Afonso, que nos bancos escoliares de afirmara inteligência robusta e culta e, nos cargos eclesiásticos, o homem que é do seu tempo, vei para a cátedra professoral e para a banca do jornalismo espargelar os primores dos seus conhecimentos e o melhor da sua alma intensamente devotada ao bem e ao progresso da sua terra.
Luta tenaz e persistente teve-a sempre para erguer o Instituto Municipal, onde já leccionara, a Liceu Nacional. A este grave e alto problema local – alfim solucionado – dedicou esforços que outros para logo poriam de parte! Um pouco mais de comodismo e de calculada indiferença da parte do Padre Afonso e tudo teria soçobrado no “deixar ir” tão português, tanto dos nossos hábitos.
Nos periódicos locais, onde colaborou com ciência e consciência, deixara, por anos, os traços indeléveis do polemista experimentado e indefeso, do jornalista bem conhecedor do ofício e, por isso, esclarecido, correcto, leal. Os seus escritos elevaram o jornalismo poveiro a foros de rara competência no meio provinciano.
Foi como a quadra mais brilhante em que junto dele se agruparam penas que chegaram a defrontar-se com as melhores dos jornais portugueses, esse temo em que o Padre Afonso dirigiu, infatigável e proficientemente, a “Estrela Povoense”, onde foram versados os mais interessantes e capitais questões para esta Póvoa: - a pesca de arrasto, a higiene e melhoramentos locais, a propaganda da praia, a renovação política que fez irmanar partidos e congraçar adversários, tudo para a transformação da Póvoa, sempre benéfica, sempre útil.
Bons tempos, esses!
Revendo, com dolorosa exactidão e lancinante memória, toda essa extinta campanha pelo torrão pátrio, todo esse bom combate, em que o peso da tarefa se anulava pelo êxito da acção. Essa bela figura do Padre Afonso, agora esbatida, imaterializada, distende-se, duplica-se, agiganta-se, cobre como uma sombra cariciosa o coração daqueles que o conheceram, que bem lhe quiseram, como ele bem queria a todos.
Morreu um grande, um autêntico povoense!


“Póvoa de Varzim”, n.º4, 4.º ano, 1914 (segunda quinzena de Dezembro)

Conselheiro Abel Andrade


Na origem do Liceu da Póvoa de Varzim está um grande vila-condense, o Conselheiro Abel de Andrade.
Nasceu ele em Vila do Conde a 5 de Outubro de 1866 e faleceu com 91 anos em Lisboa, em 6/5/1958.
Foi “sócio da Academia de Ciências de Lisboa, do Instituto de Coimbra, da antiga União Internacional de Direito Penal, da Academia de Jurisprudência e de Legislação de Madrid, da «International Law Association» de Londres, colaborou largamente nas mais importantes revistas de Direito de Portugal”.
Em 1912, se não erramos, a revista A Póvoa de Varzim evocou o Conselheiro Abel Andrade com o texto que se segue, encimado de fotografia:

Tem a consagração da Póvoa de Varzim este ilustre cidadão que prestou relevantes serviços à instrução deste concelho quando Ministro da Instrução Pública no extinto regime.
Sua Ex.a tributava muita afeição por esta terra, conquistando logo as simpatias dos seus habitantes, que viam em Abel Andrade um cavalheiro de primorosas qualidades e um homem de Estado recto e justiceiro.
Foi o grande amigo desta terra que vendo-a num estado material tão progressivo, mas decadente na instrução, sem escolas em edifícios próprios, brindou-a com três escolas oficiais: uma na rua dos Banhos, outra na rua Direita e ainda outra ao lado da capela da Lapa, passando para elas os professores que leccionavam em casas particulares.
Sua Ex.a, vendo que a Póvoa de Varzim possuía um Instituto Municipal, elevou-o (em 1904) à categoria de Liceu Nacional, fazendo passar pela assinatura régia o decreto da sua criação, conseguindo depois a Câmara o donativo de 4 contos do Governo para manter-se até à 5.ª classe, cuja quantia tem sido variável, conforme as conveniências governativas.
Ante a boa vontade de ser prestante à nossa terra, sua Ex.a cada vez mais enraizou no coração dos poveiros profundas simpatias, e estes lhe prestaram um brilhantíssimo banquete no Teatro Garrett, que decorreu delirante.
Foi então que a Câmara Municipal resolveu – e muito bem – prestar-lhe homenagem de gratidão por tão grandes melhoramentos materiais, mudando a placa onde se lia «Rua Direita» e colocando outra com esta designação Rua Conselheiro Abel Andrade – nome que soa tão bem pela dedicação que sua Ex.a tem por esta linda praia, dedicação que raras vezes se vê nos estadistas e nos governos.
É por isso que nos nossos corações está escrito em caracteres de ouro o nome do Sr. Dr. Abel Andrade, como um benemérito da Póvoa de Varzim, porquanto sua Ex.a, não sendo povoense, tem direito à consagração de quem só benefícios recebeu.
A rua Conselheiro Abel Andrade é hoje a que, saindo da porta principal da Escola Secundária de Eça de Queirós, vai para o largo da Dores.
Aquando da sua morte, ocorrida em 6/5/1958, o Diário de Notícias lembrou a sua figura e obra num extenso currículo. Na Enciclopédia Verbo vem sobre ele um elogioso artigo assinado por Marcelo Caetano.
Na juventude, Abel Andrade viveu a escassas centenas de metros da casa de Antero de Quental, de quem se tornou amigo (Década Dourada de Vila do Conde de Ana Mª A. Martins).

Integrado teórica e praticamente na doutrina do catolicismo romano em que foi educado, essa sua orientação transparece sempre tanto na direcção dos seus cursos na Faculdade de Direito e nas sessões do Conselho Superior de Instrução Pública como em numerosas alocuções políticas e conferências que proferiu.
Com carta de Conselho por decreto de 1901, o Sr. Conselheiro Abel de Andrade possuía entre outras condecorações as Grã-Cruzes da Ordem da Coroa de Itália, de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e da Ordem de S. Silvestre, conferida pelo Papa Pio XI.
Publicou os seguintes volumes que acentuam o grande valor do seu espírito de jurista e da sua vasta cultura humanista: «A Síntese Cartesiana. Influências do Cartesianismo sobre o Racionalismo. Estudo teórico-prático», com prefácio de Teófilo Braga (1892); «A Parede e as minhas Responsabilidades» (1892); «Crítica Literária» (1892); «Princípio das Nacionalidades» (1893); «Administração e Direito Administrativo» (1893); «A João de Deus»; «Memória Apresentada ao Congresso N. de Tuberculose»; «Crítica Financial» (1895); «Evolução Política em Portugal» (1895); «Comentário ao Código Civil Português» (1895); «A vida do Direito Civil», 5 vol. e um fasc. (1898-99); «Síntese Histórica das Doutrinas Económicas» (1898); «Ciência Económica» (1898); «Direito Comercial» (1899); «Crítica da Diferenciação do Direito Penal» (1922); «Primeiras Linhas dum Curso de Processo Criminal» (1926); «Circunstâncias Dirimentes da Responsabilidade Criminal» (1929); «Regime Jurídico-penal de Vadios, um Ensaio de Pena Indeterminada» (1929); «Da Extradição» (1929»; «Sumário de Lições Magistrais (Cadeira de Direito Penal)» (1931-32); «Sumário das Lições (Cadeira de Processo Penal)» (1930-33); etc., etc.
O Sr. Conselheiro Prof. Conselheiro Abel de Andrade fazia parte do Conselho Fiscal da Empresa Nacional de publicidade.
Diário de Notícias
Nos últimos 30 anos da sua vida dedicou-se à causa da Igreja Católica, prestando relevantes serviços ao Patriarcado de Lisboa, que lhe valeram o agraciamento com a Grã-Cruz de S. Gregório Magno. No tempo da Monarquia também recebera a Grã-Cruz de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, tendo sido o último sobrevivente dos possuidores desta extinta condecoração. A sua obra científica ficou dispersa em artigos de revista e outros escritos.

VELBC

APÊNDICE

 A educação no concelho da Póvoa de Varzim em 1848 e 1889


Há vários relatórios do Administrador do Concelho da Póvoa de Varzim sobre educação, enviados ao Governo Civil. O que se transcreve de seguida data de 1848, já de depois da Maria da Fonte e da Patuleia, mas de antes da Regeneração. O esforço decidido para modernizar o país tinha começado, mas os frutos eram ainda escassos: havia que curar os muitos males que os sucessivos governos tinham deixado acumular. Mas nos 30 anos seguintes muita coisa ia mudar: as escolas, ao menos as masculinas, iriam generalizar-se nas freguesias rurais.

Ilustríssimo e excelentíssimo Senhor 
Em cumprimento da Circular n.º 3 enviada pela 2.ª Repartição desse Governo Civil, em data de 23 de Agosto pretérito, tenho a honra de enviar a V. Senhoria o Mapa Estatístico do número das Escolas Régias e Particulares de Ensino Primário e Secundário existente neste concelho em 31 de Julho do corrente ano, pelo qual se mostra que neste concelho há apenas um mestre régio, na freguesia de Rates, com carta régia de 26 de Fevereiro de 1839, cuja aptidão, zelo e assiduidade e comportamento moral e político é sofrível (e no mesmo grau o aproveitamento dos seus discípulos), de idade de 55 anos, solteiro, sem família e sendo filho de lavradores que o sustentam, natural da freguesia de Gueral, concelho de Barcelos, meia légua distante da freguesia de Rates, onde tem estabelecida a sua escola em casa de aluguer e aonde acorre com prontidão e a horas próprias de principiar e continuar as suas lições, sem a menor falta.
Está no centro do concelho e lugar sadio ou salubre, com a capacidade necessária para o número de 60 discípulos, sendo que destes não frequentam no tempo senão a metade por serem ocupados nos trabalhos agrícolas com seus pais.
Nesta vila (da Póvoa de Varzim) não há mestre régio nem de ensino primário nem secundário: esta cadeira foi suprimida pelo Conselho Director da Instrução Pública a título da proximidade desta vila com Vila do Conde, no que tem experimentado uma falta notável e digna de contemplação do Governo, enquanto a primeira de Ensino Primário se acha vaga desde a morte do último professor Tomás Martins Mouta, em 28 de Dezembro de 1845, havendo apenas dois professores particulares do dito ensino, que recebem salários dos mesmos discípulos, cuja aptidão, zelo e comportamento social, moral e político não pode notar-se defeito algum, não sendo (a não ser?) a falta de método e utensílios necessários para uma boa escola normal, ensinado apenas a conhecer e juntar as letras, nomes e as quatro operações aritméticas pelo método antigo que aprenderam.
Não há escolas do sexo feminino, nem régia nem particular, e apenas algumas mestras de costura e meia ensinam o que sabem (às suas discípulas) de ler e escrever.
É quanto se me oferece dizer a V. Senhoria a semelhante respeito, resumindo uma matéria que tanto tem que dizer sobre a necessidade que há de mestres e mestras que não somente sejam hábeis para o ensino, mas mesmo para a educação física, moral e política de que tanto se carece.
Deus guarde V. Senhoria. 
Administração do Concelho da Póvoa de Varzim, 25 de Setembro de 1848.
O Administrador do Concelho, Filipe António Pereira da Silva

Aquele professor régio, oficial, de Rates, era um caso notável: “de idade de 55 anos, solteiro, sem família e sendo filho de lavradores que o sustentam, natural da freguesia de Gueral, concelho de Barcelos, meia légua distante da freguesia de Rates, onde tem estabelecida a sua escola, em casa de aluguer e aonde acorre com prontidão e a horas próprias de principiar e continuar as suas lições, sem a menor falta”.
Notável e também lamentável era o ensino para as meninas na sede do concelho, a cargo das “mestras de costura e (de) meia”.
E ainda havia o caso da escola sem professor há anos…

Copia-se agora um fragmento duma folha de pagamento aos professores poveiros do ensino primário relativa a 1889. No concelho da Póvoa todas as freguesias possuíam escola. E havia algumas femininas. E já havia estradas modernas e comboios… Muito se tinha feito!

Há uma célebre farpa de Eça de Queirós, de Março de 1872, intitulada “Melancólicas reflexões sobre a instrução pública em Portugal”. Deve tratar-se dum escrito profundamente injusto para os governantes do tempo, sabendo-se como tinham recebido o país.
Transcrevem-se dois fragmentos dela. O primeiro aborda a situação salarial do professor de instrução primária, considerada humilhante pelo escritor:
O professor de instrução primária é o homem no país mais humildemente desgraçado e mais cruelmente desatendido.
Sabem quanto ganha um professor de instrução primária? 120$000 réis por ano, 260 réis por dia! Tem de se alimentar, vestir, pagar uma casa, comprar livros, e quase sempre comprar para a escola papel, lápis, lousas, etc. – com treze vinténs por dia. Note-se que para a alta moralidade da sua missão, o professor deve ser casado. Pois bem, para criar uma família – treze vinténs por dia! 
O segundo refere a relação das câmaras com a instrução e fala sobretudo de Suas Senhorias os vereadores:
Em primeiro lugar a instrução pública entre nós está todo a cargo do Governo.
As câmaras municipais, que por uma velha tradição nunca se ocuparam das coisas da inteligência – não dão sequer esmola ao ABC. Uma câmara tem antes de tudo, como objecto, macadamizar comodamente as ruas ou as vielas de SS. S.as os vereadores; depois tem de construir as estradas que levam às quintas onde SS. S.as os vereadores, de tamancos e colete aberto, suam sob a folhagem da faia – sub tegmine fagi; depois tem de empregar, subsidiar, e em geral manter todos os afilhados de SS. S.as os vereadores. Quando chega a passar o ABC, SS. S.as têm a iniciativa cansada e a bolsa esvaziada. 
A abertura e macadamização das estradas estava na ordem do dia, mas isso corrigia um mal de séculos e preparava o futuro.
A expressão sub tegmine fagi vem duma écloga de Virgílio e quer dizer “à sombra da faia”.
Parece-nos que na Câmara da Póvoa o bem público imperava bastante mais do que o escritor faz crer: não se vê que os vereadores (e conhecemos o que se passou com vários) obtivessem grandes benefícios do exercício do cargo.