segunda-feira, 11 de outubro de 2010

APÊNDICE

 A educação no concelho da Póvoa de Varzim em 1848 e 1889


Há vários relatórios do Administrador do Concelho da Póvoa de Varzim sobre educação, enviados ao Governo Civil. O que se transcreve de seguida data de 1848, já de depois da Maria da Fonte e da Patuleia, mas de antes da Regeneração. O esforço decidido para modernizar o país tinha começado, mas os frutos eram ainda escassos: havia que curar os muitos males que os sucessivos governos tinham deixado acumular. Mas nos 30 anos seguintes muita coisa ia mudar: as escolas, ao menos as masculinas, iriam generalizar-se nas freguesias rurais.

Ilustríssimo e excelentíssimo Senhor 
Em cumprimento da Circular n.º 3 enviada pela 2.ª Repartição desse Governo Civil, em data de 23 de Agosto pretérito, tenho a honra de enviar a V. Senhoria o Mapa Estatístico do número das Escolas Régias e Particulares de Ensino Primário e Secundário existente neste concelho em 31 de Julho do corrente ano, pelo qual se mostra que neste concelho há apenas um mestre régio, na freguesia de Rates, com carta régia de 26 de Fevereiro de 1839, cuja aptidão, zelo e assiduidade e comportamento moral e político é sofrível (e no mesmo grau o aproveitamento dos seus discípulos), de idade de 55 anos, solteiro, sem família e sendo filho de lavradores que o sustentam, natural da freguesia de Gueral, concelho de Barcelos, meia légua distante da freguesia de Rates, onde tem estabelecida a sua escola em casa de aluguer e aonde acorre com prontidão e a horas próprias de principiar e continuar as suas lições, sem a menor falta.
Está no centro do concelho e lugar sadio ou salubre, com a capacidade necessária para o número de 60 discípulos, sendo que destes não frequentam no tempo senão a metade por serem ocupados nos trabalhos agrícolas com seus pais.
Nesta vila (da Póvoa de Varzim) não há mestre régio nem de ensino primário nem secundário: esta cadeira foi suprimida pelo Conselho Director da Instrução Pública a título da proximidade desta vila com Vila do Conde, no que tem experimentado uma falta notável e digna de contemplação do Governo, enquanto a primeira de Ensino Primário se acha vaga desde a morte do último professor Tomás Martins Mouta, em 28 de Dezembro de 1845, havendo apenas dois professores particulares do dito ensino, que recebem salários dos mesmos discípulos, cuja aptidão, zelo e comportamento social, moral e político não pode notar-se defeito algum, não sendo (a não ser?) a falta de método e utensílios necessários para uma boa escola normal, ensinado apenas a conhecer e juntar as letras, nomes e as quatro operações aritméticas pelo método antigo que aprenderam.
Não há escolas do sexo feminino, nem régia nem particular, e apenas algumas mestras de costura e meia ensinam o que sabem (às suas discípulas) de ler e escrever.
É quanto se me oferece dizer a V. Senhoria a semelhante respeito, resumindo uma matéria que tanto tem que dizer sobre a necessidade que há de mestres e mestras que não somente sejam hábeis para o ensino, mas mesmo para a educação física, moral e política de que tanto se carece.
Deus guarde V. Senhoria. 
Administração do Concelho da Póvoa de Varzim, 25 de Setembro de 1848.
O Administrador do Concelho, Filipe António Pereira da Silva

Aquele professor régio, oficial, de Rates, era um caso notável: “de idade de 55 anos, solteiro, sem família e sendo filho de lavradores que o sustentam, natural da freguesia de Gueral, concelho de Barcelos, meia légua distante da freguesia de Rates, onde tem estabelecida a sua escola, em casa de aluguer e aonde acorre com prontidão e a horas próprias de principiar e continuar as suas lições, sem a menor falta”.
Notável e também lamentável era o ensino para as meninas na sede do concelho, a cargo das “mestras de costura e (de) meia”.
E ainda havia o caso da escola sem professor há anos…

Copia-se agora um fragmento duma folha de pagamento aos professores poveiros do ensino primário relativa a 1889. No concelho da Póvoa todas as freguesias possuíam escola. E havia algumas femininas. E já havia estradas modernas e comboios… Muito se tinha feito!

Há uma célebre farpa de Eça de Queirós, de Março de 1872, intitulada “Melancólicas reflexões sobre a instrução pública em Portugal”. Deve tratar-se dum escrito profundamente injusto para os governantes do tempo, sabendo-se como tinham recebido o país.
Transcrevem-se dois fragmentos dela. O primeiro aborda a situação salarial do professor de instrução primária, considerada humilhante pelo escritor:
O professor de instrução primária é o homem no país mais humildemente desgraçado e mais cruelmente desatendido.
Sabem quanto ganha um professor de instrução primária? 120$000 réis por ano, 260 réis por dia! Tem de se alimentar, vestir, pagar uma casa, comprar livros, e quase sempre comprar para a escola papel, lápis, lousas, etc. – com treze vinténs por dia. Note-se que para a alta moralidade da sua missão, o professor deve ser casado. Pois bem, para criar uma família – treze vinténs por dia! 
O segundo refere a relação das câmaras com a instrução e fala sobretudo de Suas Senhorias os vereadores:
Em primeiro lugar a instrução pública entre nós está todo a cargo do Governo.
As câmaras municipais, que por uma velha tradição nunca se ocuparam das coisas da inteligência – não dão sequer esmola ao ABC. Uma câmara tem antes de tudo, como objecto, macadamizar comodamente as ruas ou as vielas de SS. S.as os vereadores; depois tem de construir as estradas que levam às quintas onde SS. S.as os vereadores, de tamancos e colete aberto, suam sob a folhagem da faia – sub tegmine fagi; depois tem de empregar, subsidiar, e em geral manter todos os afilhados de SS. S.as os vereadores. Quando chega a passar o ABC, SS. S.as têm a iniciativa cansada e a bolsa esvaziada. 
A abertura e macadamização das estradas estava na ordem do dia, mas isso corrigia um mal de séculos e preparava o futuro.
A expressão sub tegmine fagi vem duma écloga de Virgílio e quer dizer “à sombra da faia”.
Parece-nos que na Câmara da Póvoa o bem público imperava bastante mais do que o escritor faz crer: não se vê que os vereadores (e conhecemos o que se passou com vários) obtivessem grandes benefícios do exercício do cargo.

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