domingo, 24 de julho de 2011

Breve antologia


I
Notas filológicas

«Idea Nova», 13/5/1939

O verbo arcaico leixar pas­sou para o moderno deixar, pela permuta de l por d.

*
Há tempos, ao regermos uma aula de Português de 6º ano, apareceu-nos in Ásia, de João de Barros, década 1, liv.º 4.º, a palavra leixava. Em nota a esta palavra diz o Sr. Dr. António Sérgio (prefaciador e anotador do texto adoptado):

Deixava. Leixar proveio do latim laxare (cp. o francês laisser).
Este verbo foi depois completamente substituído por­ deixar, cuja origem não se acha bem esclarecida; usam-se ainda desleixar, desleixado.

Ora a palavra já tinha sido estu­dada em autores adoptados no 5.º ano e nós já tínhamos dito a razão da mudança ou substituição. Mas, em todo o caso, aconselhámos os alunos a que acrescentassem mais o seguinte à nótula do prefaciador e anotador:
«Relaxe, relaxar, relaxado. O A. da nota ignora que o l se permuta com d, como em escala que deu escada; tecelão, tecedeira; lat. humilem que deu o português humilde (aqui desdo­brou-se o 1 em ld); Ulisses e Odis­seia, etc.»
Já depois de acabada a lição, ocorreu-nos que já tínhamos noutras ocasiões dito aos alunos que até na linguagem infantil se dá às vezes aquela permuta dos dois sons ou fone­mas e que já tínhamos citado outros mais exemplos de palavras de nossa língua.
Agora, na convicção de que pode­remos ser útil aos queridos alunos que vão fazer exame daqui por dois meses, apresentamos lista mais completa de exemplos da tal permuta, tanto em nossa língua, como até em latim e grego. Ei-la:
Grego Odysseus e latim Ulysseus ou Ulysses ou Ulixes, e português Ulisses e Odisseia; no português infantil duar, e no literário luar; no português infantil deitinho e no literário leitinho, e no infantil dindo e no literário lindo; no português popular de Barcelos inlústria, e no literário indústria; no prop. idem inxúlia ou inxulha e no literário enxúndia; no latim Aegidius e no português Gil; no latim vulgar jud’care e no português julgar; no latim vulgar med’ca e no português melga; no grego dákry ou dákryon e no latim lacryma ou lacrima, «a lágrima»; no grego dakryô, «chorar», e no latim lacrymo ou lacrymor, «der­ramar lágrimas, chorar», etc.
Também dos pontos cardiais Sul e Oeste resultou o colateral Sudoeste, como em francês, e nesta língua também Sudeste, de Sud+Est (que em bom português é Suest).
Encontramos ainda no popular de Barcelos lestre ou lestro, «ligeiro, rá­pido» ou «ligeiramente, rapidamente», do latim dexter ou dextrum; e o popu­lar lestreza, sinónimo de destreza, «ligeireza, desembaraço».
E, a propósito de escada e escala, ocorre-nos que o Se Manel, guarda do Liceu de Viana aí por 1900, chamava escaleira à escadaria do dito liceu (onde hoje é o Governo Civil).
Agora note-se: se qualquer patarata futurista ou modern styl (como dizem os alemães) disser que isto é ciência gramatical de 1900, como certos cretinos que por’i dizem criaturo, a gente ri-se deles e deixa-os com suas habilidades calinóides.
Mas também já no latim havia odor,-oris, «odor, cheiro», a par de olor,-oris, «odor»; e o Dicionário La­tino de F. Torrinha regista com esta observação: «Parece relacionar-se com odor». E, no mesmo dicionário, compa­rando o verbo odoro,-are..., «exalar cheiro», com o verbo odoror,-ari..., as significações são idênticas. E neles se pode ver também afinidade com odor e com olor.
Vê-se, pois, que deve estar bem esclarecida a origem do deixar, por permuta do l de leixar em d, embo­ra diga o contrário o Sr. Dr. A. Sérgio.

II
Os gatos e a previsão do tempo

«O 28 de Maio», 26/6/1928

Lendo há dias neste jornal a secção de «Sciências e Instrução», em que brilha a pena do meu prezado colega Dr. António Barbosa, cheguei à conclusão de que as ciências até hoje, a respeito de previsão do estado do tempo, não dão mais que uma antecipação de 24 horas.
E, segundo se viu em o n.º 5 do «28 de Maio», ainda é preciso a gente procurar os jornais de Lisboa, para ler o boletim meteorológico do Ministério da Marinha, para saber se há ou não baixas pressões nos Açores.
Já não falamos em dar os 30 centavos diariamente pelo jornal, o que ainda faz encarecer mais a decifração do problema.
Ora, a propósito, lembrei-me de que, sem desdouro para o meu prezado colega, nem para a Ciência mesmo com inicial maiúscula, minha avó paterna já sabia de véspera o tempo que ia fazer no dia seguinte, sem ler os boletins meteorológicos.
Minha avó sabia ler (antes até de se fundar «O Século» e mesmo «O Diário de Notícias», mas nunca lia os boletins meteorológicos do Ministério da Marinha (se é que eles já então se publicavam) para saber o tempo que estaria no dia seguinte. Bastava-lhe observar os gatos quando se lavam!
Esse barómetro é mais barato que o aneróide e que o de Torricelli, não se parte, e... ainda nos caça o ratos e... cria as pulgas.
Pois é verdade, sim, senhores.
Para o lado que estiver voltado o gato (ou a gata, não sendo das de estudante), ao lavar-se, é do lado que correrá o vento dentro de menos de 24 horas.
É observar o espinhaço do gato que se lava, ver que orientação ela tem, e sabe-se logo se no dia seguinte há sol ou chuva.
Sabido é que o vento N. Ou de L. Não dá chuva, ao passo que o de NO. W. Ou S (e as vezes SE.) dá sempre. Pois os gatos não enganam a gente.
Ah, os leitores riem-se? Pois eu também cito prova, como o meu colega. E para testemunhas são dos camaradas dele, um dos quais o meu caro amigo Sr. Capitão Esteves de carvalho.
Era no domingo de Pascoela, 15 de Abril, cerca das 23 horas. Eu vinha passando junto ao quartel militar e nem visa aquele meu amigo nem outro Sr. oficial que estavam à janela do primeiro andar. Foi o Cap. Esteves que me falou, depois que parei e nos saudámos. Estávamos nisto, quando o gato da tropa, no rés-do-chão sobre uns móveis – um lindo gato pardo, por sinal – se lavava por dentro da janela, ali mesmo nas minhas barbas, se lavava voltado para o Mar (mas ele lavava as dele). Interrompi os cumprimentos, do que pedi vénia ao Sr. Cap. Esteves, e disse:
- Quer o meu amigo saber o tempo que teremos amanhã?
- Pois quero, disse ele.
- Então saiba que temos chuva, porque está à minha frente um gato a lavar-se voltado para o Mar.
- Ah, sim?
- É verdade. Se não acredita, experimente amanhã, que depois me dirá se eu adivinho.
E completámos os cumprimentos, e eu disse ao capitão: Logo não se esqueça de ir à romaria da Senhora do Bom-Sucesso, que já se ouvem os foguetes. E despedi-me.
Não sei se ele foi à romaria, que o não vi lá. Fui eu com a família, e não esperei para o fim do dia para regressara a casa. Pelo caminho já apanhámos um chuveiro puxado a vento de W., quase ao pôr-do-sol.
E no dia seguinte?
No dia seguinte que o diga a Póvoa inteira e suas vizinhanças também – qual foi o lindo tempo que fez.
Mas a minha avó ainda conhecia mais processos para saber disto, sem assaltar as folhas. E o que ela sabia, sabe-o toda a gente do meu vizinho concelho de Barcelos.
Como meu colega Dr. Barbosa no imediato n.º deste jornal veio recordar o nosso congresso de Aveiro, do ano passado, em que se aprovou uma tese sobre folclore regional, continuaremos a expor aqui o que sabe o povo a respeito de meteorologia e doutras coisas interessantes. E ainda muita gente se há de rir.


III
Democracia, Liberdade... "Unidade" democrática"

«Idea Nova», 10/09/45


Andam ao rubro certos cérebros estonteados com as palavras Demo­cracia, Liberdade, Unidade De­mocrática, talvez ingenuamente crentes de que serão capazes de arrastar para si, quais magnéticas montanhas, a grande massa da população de Portugal. Não se pode afirmar que anda meio mundo a enganar o outro meio, como é frase feita de há séculos em nosso idioma, porque, na realidade, anda­rão apenas 5% de iludidos a jul­gar que enganarão os 95% res­tantes.
Mas façamos justiça a todos; acreditemos que na efervescência que surgiu nas últimas semanas, onde se notam nomes de muita gente nova que desconhece as mi­sérias e degradações a que Portugal foi levado em dezasseis anos de loucuras e crimes hedion­dos; em tal efervescência, dizía­mos, anda iludida muita gente mo­ça, muita gente generosa e de boa-fé, que não sabe quanto veneno en­cerram aquelas palavras mágicas de que enchem o peito e a boca cer­tos ilusionistas políticos.
Mas os velhos, que bem conhe­ceram tudo o que se passou, des­de 5 de Outubro de 1910 até 28 de Maio de 1926, os que já têm a experiência dura e triste de tão desgraçado tempo que a nossa que­rida Pátria atravessou, esses... es­ses não podem ter a desculpa que aos novos se deve conceder. E não podem tê-la, porque ou foram colaboradores responsáveis dos crimes que desventuraram Portugal (e devem só penitenciar-se), ou foram vítimas inocentes e incapazes de evitar as desgraças da Pátria (e de­vem estar curados e desiludidos até à saturação).
Mas, ao que se lê e se ouve di­zer, parece que os colaboradores das desditas nacionais continuam impenitentes; antes querem acumu­lar novas responsabilidades tremen­das com seus maus conselhos aos novos, a quem desejam enganar, infelicitando-os e à Nação.
Vamos nós avivar a memória aos velhos tontos e desmemoriados, em­bora lhes possamos acordar o re­morso que deviam ter por suas mal­feitorias; e vamos avisar caridosa­mente os novos generosos, para que se não deixem iludir pelo canto da sereia que procura arrastá-los para o abismo. É obra de misericórdia o “dar bom conselho e correcção fraterna”, e nós julgamo-nos com direito de o fazer, porque já temos bastante experiência; e até nos jul­gamos com o dever de aconselhar os novos, porque desde a nossa mo­cidade temos vivido com a juventude esperançosa e temos obrigação de a prevenir contra os embaidores.
Também nós fomos dos iludi­dos, desde os bancos do liceu; tam­bém nós ouvíamos extasiado o canto da sereia, que fazia ouvir harmoniosamente as palavras Democracia, Liberdade... e até Unidade Democrática ou União Republicana. E nós acreditáva­mos, por sermos inexperiente!
Quanta hipocrisia, quanta men­tira havia nas almas que proferiam tais palavras em altos gritos, isso é que nós ainda não tínhamos des­coberto. Mas descobrimos depois, graças a Deus, que o tempo che­gou para tudo.
Da primeira vez que, em Viana do Castelo, saímos para a rua, já noite fechada, já ceia comida, havia barulho, burburinho, gritos à li­berdade (era de inicial minúscula esta liberdade) e... morras aos Jasuítas!
Fomos na cauda daquela pro­cissão nocturna, com outros com­panheiros do caso, estudantes como nós; e fomos observar o que seria aquilo.
Ao chegarmos à residência dos Quesados, na Rua da Bandeira, ou­vimos muitos vivas à liberdade, muitos morras aos Jasuítas, e vimos partir os vidros das janelas dos Reverendos Padres da Companhia de Jesus, e vimos muitos po­bres operários apanhar excremento da rua e atirá-lo às portas e janelas daquela casa!
Mais tarde o jornal O Século chamaria à turbamulta que formava tais cortejos a cauda lamacenta de todas as demagogias; mas só foi mais tarde uns dez ou doze anos!
Nós estávamos presente àquele espectáculo, no ano 1.º deste século XX; mas ficámos triste e pen­sativo, sem atinar com os motivos daquela vilania!
Anos depois, fomos aprendendo melhor o que eram manifestações promovidas por doidos que dese­javam ser mentores das massas po­pulares, e fomos compreendendo melhor quanta hipocrisia abrigavam certas almas podres que enchiam a boca, e atroavam os ares, com as palavras liberdade, democracia, etc. Mais tarde... vimos os democráticos perseguir gente hon­rada e pacífica, levá-la no meio de escoltas para as cadeias ou para os comboios, para a meterem em masmorras de Lisboa e arredo­res, ou nos porões de navios; vimos certos democratas fechar tem­plos católicos, proibindo ao Povo Soberano que entrasse nessas igrejas, ou pudesse ouvir missa nas próprias igrejas paroquiais! (A igre­ja paroquial de Cossourado, Barce­los, esteve fechada bastantes me­ses, porque os amigos da Demo­cracia imperante se apossaram da chave, não consentindo que o Pá­roco exercesse no templo as fun­ções sacerdotais)!
Isto era a Democracia deles!.. A Liberdade.., essa foi depois, quando um dia o povo perdeu a pa­ciência, exigiu a chave da igreja aos déspotas que a tinham em seu poder, e... reclamou a liberdade para ouvir missa na sua paróquia. Como alguns dos tais democráticos ficaram quentes das coste­las, e como eram eles os detento­res da liberdade alheia, chamaram de Barcelos a G.N.R. e ... nesse domingo, pela tarde, apanharam em flagrante delito de motim quantos inimigos políticos isolados encontraram pelos caminhos da fre­guesia! (Note-se bem: foram apa­nhados, 4 a 6 horas depois de aberta a igreja, a um quilómetro, a dois, e a mais, em flagrante delito).
Claro está que, por amor à liberdade, foram esses cavalheiros dormir no quartel da Guarda, em Barcelos, às ordens dos democrá­ticos.
Depois foram julgados e condenados, porque houve testemunhas de vista que por ordem dos de­mocráticos, e por amor à liberdade, juraram a verdade democrática.
Que mais vimos nós? Vimos muitas coisas, e lemos outras no «Barcelense» (e reproduzimo-las no defunto «O 28 de Maio», de há anos).
Os amigos da Democracia e da Liberdade, possuidores do mando, vingaram-se dum adversá­rio que litigava com eles no tribu­nal de Barcelos, por eles quererem ter a liberdade de se apos­sarem dumas águas alheias; e me­teram esse adversário e um criado dele num curral da casa deles, onde tinha morrido um cavalo com mormo! A tragédia sofrida por essas vítimas deu muito que contar e que escrever, porque os tiranos... eram amigos da Liberdade e da Democracia só para si próprios, e tinham na mão a va­ra do poder.
Os presos não foram levados pa­ra a cadeia da Comarca; foram metidos em cárcere privado, du­rante vários dias, nos currais da casa do Administrador do Concelho, na aldeia, porque... então havia Liberdade, havia amor à Democracia!
Nós temos como dever de cons­ciência dizer estas verdades (que ficaram escritas e ainda se podem ler), para que os novos de boa fé, a mocidade heróica e bela, no dizer de Junqueiro, não se deixe encantar pela sereia, nem pelas cantigas de certas raposas manho­sas que os queiram iludir.
Quanto ao amor da Pátria, quanto ao civismo de muitos democratas, não queremos discutir isso, porque muitos deles nos merecem respeito e consideração pela sua sinceridade e honradez. Enten­derão mal, verão com vista estrá­bica o que julgam bem do povo, o bem da Nação? Talvez; mas que Deus os ilumine, os faça ver a direito e compreender com sã consciência o que mais convém a Portugal.
Por hoje só fica uma pequena amostra da Democracia e da Li­berdade.
Se calhar, depois virá mais.

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