sábado, 23 de julho de 2011

A “nossa homenagem” a Eça de Queirós


À medida que os anos passam, a nossa opinião sobre Eça de Queirós torna-se mais esclarecida e negativa. Os dois textos que colocamos a seguir, um de 2010, outro de 2013, já não reflectem o que pensamos hoje sobre o romancista. Mas são documentos sobre o que então pensava sobre o patrono um ex-professor de Português da Escola Secundária de Eça de Queirós.

Aí vai "ma pensée intime"

Por trás da estátua de Eça de Queirós que está na Praça do Almada, vê-se uma espécie de alta coluna quadrangular, como uma estela, onde se lê uma longa citação do romancista, que começa assim:
“A arte é tudo. Tudo o resto é nada.”
Ao contrário do que Eça afirmou e se lê ao cimo da pedra por detrás da sua estátua, a Arte é muito, muito menos do que tudo.
A meu ver isto é apenas um exagero. Nem todos somos artistas, mas todos somos alguém. Além da arte, há muito mais em que cuidar à face da Terra. A bondade, a generosidade, a solidariedade, a religião, a política, as crianças, os jovens, os novos e os velhos, a vida em geral, etc.
Mas há hoje muitas pessoas para quem as palavras arte e artista têm um encanto único. Um artista aparece-lhes logo como um modelo: de pensamento, de humanidade, das mais diversas qualidades. Ora, infelizmente, no geral as coisas não se passam assim. Poucos de nós estariam interessados em ser vizinhos de muitos dos ditos artistas.
Há muitos anos, ouvi uma professora a dizer que se devia eliminar da biografia dos literatos certos documentos, isto é, certos textos onde as suas qualidades morais descem a um nível muito baixo. É claro que isso só pode ser um enorme disparate: tais documentos são muitas vezes chave para nós entendermos muito do que escreveram.
Consideremos agora certa carta de Eça de Queirós, dirigida ao seu amigo Ramalho Ortigão. Era ela a que a tal professora se referia.
Veja-se este fragmento:

“- Além do escândalo - quero dinheiro. Se o Primo Basílio se vendeu - por que se não há-de vender a Batalha do Caia? Cuida V. que lhe hão-de faltar os episódios picantes, lúgubres, voluptuosos, épatantsPas si bête. Há-de ter de tudo: um salmis d'horreurs. O burguês gosta da rica cena de deboche? Há-de tê-la: somente desta vez é a sua própria filha violada, em pleno quintal, pelo brutal catalão dos dragões de Pavia: - a sua própria filha, a quem outrora Bulhão Pato murmurava: Lembras-te ainda dessa noite, Elisa? Portanto - se o livro se vende - por que não hei-de fazer especulação e tratar de pagar as minhas dívidas? Donc, résumons: choque eléctrico ao porco, e dinheiro para bebé (bebé c'est moi).”

Eu não vou comentar isto, que tem um contexto bem concreto e conhecido. Mas no mínimo não condiz com o alto conceito de arte da citação da estátua. Acrescento ainda mais um outro fragmento da carta:

“O que resta é isto - e aí vai ma pensée intime - é que a ideia publicada ou inédita é um capital: esse capital tenho direito a ele, que me venha do Chardron (ou do público, melhor) pela publicação, ou que me venha do Governo pela proibição - é-me indiferente: e Você está por esta encarregado de fazer produzir capital à ideia.
Amigo, leia com atenção este volumoso documento - e responda logo o que fez, e o que se decidiu. O que eu não quero é que a ideia fique improdutiva."

Bocage, uma vez, arrependido do que tinha escrito, bradou: “Rasga meus versos!” Estava certo.
A pequenez moral campeia por todo o lado. Ninguém se livra dela só por ser artista.
Vou terminar com parte dum poema de Álvaro de Campos:

“Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”

De facto, somos todos bastante irmãos.

 “O mandarim” ou dinheiro, muito dinheiro…

Hoje vou falar de um pequeno livro de Eça de Queirós, O Mandarim. Eça insiste na ideia de que se trata duma obra fantasiosa. Mas nas obras de fantasia pode-se vazar a expressão dos anseios mais fundos do autor sem os constrangimentos que o confronto com a realidade impõe. Parece-me que é o caso.
O Mandarim é, sob muitos aspectos, um parente próximo d’A Relíquia. A mesma fantasia descabelada percorre um e noutro.
Conta o protagonista, Teodoro, um bacharel funcionário do Estado contemporâneo de Eça, a viver em Lisboa, que um dia estava a ler um livro e que encontrou lá umas frases que diziam que, se tocasse uma campainha – campainha que estranhamente estava ali à mão – morreria na China um mandarim mais rico que os reis da história ou da fábula e que ele, leitor, se tornaria dono de toda a sua imensa riqueza. Teodoro hesita por momentos, mas então o Diabo, que se encontra perto e em pose de cidadão comum e bem pensante, mostra-lhe que seria erro imperdoável recusar a oportunidade.
Tocada a campainha, de imediato nada acontece, mas, passadas semanas, começa a chegar de Londres e de Paris a fortuna do mandarim morto.
Se isto não é puro delírio, então não sei como se lhe há-de chamar.
Teodoro, que é novo, começa a realizar as suas ambições: instala-se principescamente, aceita relacionar-se com os poderosos do tempo e dá-se a uma vida de luxo e deboche.
Acontecem depois várias peripécias, nomeadamente uma atribulada viagem à China. O leitor não se dá conta do passar do tempo e por isso, quando chega ao final, descobre com alguma surpresa, que Teodoro se sente já velho e faz testamento. A quem deixa os sobrantes milhões? Como eles não o fizeram feliz, deixa-os ao Diabo.
Teodoro encerra assim a sua história:

E a vós, homens, lego-vos apenas, sem comentários, estas palavras: ‘Só sabe bem o pão que dia a dia ganham as nossas mãos: nunca mates o Mandarim!’

Parece uma confissão edificante de arrependido, mas não é, pois ele continua:

“E todavia, ao expirar, consola-me prodigiosamente esta ideia: que do norte ao sul e do oeste a leste, desde a Grande Muralha da Tartária até às ondas do mar Amarelo, em todo o vasto Império da China, nenhum mandarim ficaria vivo, se tu, tão facilmente como eu, o pudesses suprimir e herdar-lhe os milhões, ó leitor, criatura improvisada por Deus, obra má de má argila, meu semelhante e meu irmão!”

Nesta apóstrofe ao leitor, o protagonista evoca certo poema satânico de Beaudelaire. De facto, O Mandarim é satânico desde as páginas iniciais até a este fim.
Talvez esta convicção de Eça, mas atribuída a Teodoro, sobre o poder do dinheiro seja mais um delírio seu e muitas pessoas recusassem tornar-se ricas com a morte alheia.
A mensagem deste livro está, menos descarada, em várias outras obras do autor. Por exemplo, no conto O Tesouro, Rui promove a morte dum irmão e mata o outro. Já pensa então numa vida de ostentação e deboche, à maneira do herói d’O Mandarim, e no modo como há-de justificar o desaparecimento dos irmãos assassinados no meio da mata: espalharia que tinham acabado na guerra contra o Turco e mandaria celebrar por eles abundantes sufrágios… Quando descobre que também fora traído, não tem nenhum rebate de consciência.
E que dizer do Raposão, protagonista d’A Relíquia? E que dizer do lugar do dinheiro n’A Cidade e as Serras? E n’Os Maias?
Eça escreveu uma vez que “a Arte é tudo. Tudo o resto é nada”. Devia estar sob um ataque de lirismo: então o dinheiro não é que é mesmo tudo – para ele?


Os estudantes do Liceu na poesia de Bernardino da Ponte

Bernardino da Ponte era natural de Aver-o-Mar e foi um poeta autodidacta, falecido em 1917. Os seus poemas possuem uma qualidade bem acima do que seria de esperar num escritor com a sua formação escolar.
No Liceu, na altura, os estudos não deviam ir além do actual nono ano, pelo que os académicos a quem estes versos são dedicados eram meros adolescentes.


As quatro estações

Aos académicos do nosso Liceu

A primavera da vida,
Gerada d'áureo sorriso,
É como visão querida,
Dum ideal paraíso.

Diluem-se as amarguras
«Nesta quadra sedutora»,
Ao calor de mil venturas
Ou no regaço d'aurora.

A vida antolha-se amena,
Sem leve sombra de mágoa,
Deslizando tão serena
Como cisne ao lume d'água.

Quando, porém, o Estio,
Com seu gesto abrasador,
Abate as águas do rio
E muda aos prados a cor;

Eu vejo em trigal maduro
Que se baloiça à vontade,
Na perda do verde escuro,
A perda da mocidade.

Se por grisalhos cabelos
Passam ventos outonais,
Adeus, férvidos anelos
Do tempo que não vem mais.

O Inverno carrancudo,
Dando-nos fria guarida,
É algoz que tolhe tudo
Até nos deixar sem vida.

CPV - 20 de Janeiro de 1912


A caridade

Aos estudantes do nosso Liceu

Com seus sorrisos de fada
E com seu manto estrelado,
Lá sobe a íngreme escada
P'ra valer ao desgraçado
Que habita n'água-furtada,
Pela fome torturado.

Aqui recolhe lamentos
De quem se estorce e agoniza,
Além prevê desalentos,
Angústias mortais suaviza
E traça deslumbramentos
Na fé que pura desliza.

Onde houver catres desfeitos…
Pocilgas de pobrezinhos…
Débeis crianças sem peitos,
Quais avezitas sem ninhos…
Da esperança os efeitos
Lá traduzem seus carinhos.

Com seus dons beneficentes
E a mais alta abnegação,
Regenera almas descrentes…
Ergue ardente contrição.
E nos olhos refulgentes
Lê-se-lhe amor e perdão.

Quando ressoam clamores
Da desolada orfandade
Contra infames opressores…
Redobra então de piedade,
Debuxando a ricas cores
Primores da caridade.

……………………..

Tal é a virgem singela,
Fundadora d'hospitais,
P'ra quem a miséria apela
Nos seus embates fatais...
Sendo por isso a mais bela
Das virtudes teologais.

INT - 31 de Maio de 1917 (póstumo)


Aos académicos do nosso Liceu

Briosa mocidade, eu vos bendigo
Por ver em vós redentora luz,
A luz da liberdade, que traduz
O que há de mais nobre em peito humano ...
Em torno de pedantes que se elevam,
Espadanando sombras tenebrosas,
Ergue-se um mar em ondas alterosas,
Fustigado por vento soberano.

Esse vento, gerado pela história,
Da mocidade os cérebros sacode…
Transformado em tormenta, que bem pode
Derrubar pedestais, rasgar troféus.
Quem há-de resistir-lhe? Energúmenos?
Os ciosos de mando' Algum verdugo?...
Levanta-te da campa, Victor Hugo,
Vem abordar os novos fariseus I

A Pátria livre, a Pátria que adoramos
Geme presa às paixões desenfreadas;
Libertá-la é dever, mas sem espadas,
Sem canhões, sem metralha aterradora...
Os pífios inimigos não se batem,
Em obediência às leis da cobardia...
Uma única coisa os entibia:
A luz ridente duma nova aurora.

Rutilante horizonte que define
Soberano poder junto à Coroa,
Oferece monção serena e boa
De trilhar um caminho mui seguro...
O império da lei deve manter-se,
Sem peias de venais politiqueiros...
Dos antigos conventos os braseiros
Fornecem luz à marcha do futuro.

Por isso, mocidade, eu vos bendigo
Por ver em vós a luz que nos redime…
Retê-la sem fulgir seria crime
Ou dar alento às mais nefastas greis…
As hostes aguerridas do Mindelo,
Que o santo amor da Pátria nortearam,
Aos quatro ventos, alto, proclamaram
Que só a liberdade escuda os reis.

Poema não datado

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