sábado, 23 de julho de 2011

4. O atentado contra a casa do Administrador


No dia 1 de Junho de 1911, da parte da tarde, Tomás dos Santos comunicou em telegrama ao Governador Civil:

Casa Administrador alvejada esta noite com tiros e pedras, vidraças partidas, portas furadas. Rogo se digne enviar urgentíssimo dois polícias judiciários e oito civis. O Adm.dor Tomás dos Santos.


A imprensa mais esquentada do republicanismo poveiro vai-se exaltar e apontar logo o dedo ao Prior e ao seu jornal. O Intransigente, A Propaganda e o próprio Comércio como que rivalizam entre si a ver quem é mais severo na condenação do facto, mas sempre com a esperança de atingir o pároco.
A edição de 4 de Junho d’A Propaganda, num artigo bem destacado, intitulado “Sicários e conspiradores”, gritava assim a sua indignação:

O que acaba de se passar na vila da Póvoa de Varzim é grave, gravíssimo, e a não serem tomadas providências, e rápidas, o caso é muito sério e teremos de optar por um de dois caminhos muito opostos: ou andar de bacamarte aperrado e atirar a matar sobre a quadrilha de conspiradores ou abandonar esta terra e fugir por falta de segurança.
[…]
É preciso que a horda capitaneada pelo Prior da Póvoa seja chamada a contas, e mais é preciso que com o rótulo da República acabe o pasquim que o Prior da Póvoa pôs ao serviço de reaccionários, de monárquicos perigosos, de satânicos jesuítas que dizem tudo quanto maquinam, que bolsam todas as invectivas, que anavalham todas as reputações, numa peçonha de saramanganta, numa campanha de toupeira, numa ingratidão de jibóia entorpecida!
É preciso que se apurem os criminosos e se lhes dê o castigo devido, a eles e aos cúmplices, que os deve haver.
Para trás, bando negro!
Para trás, inimigo da sociedade, Casério maldito, Revachol danado, Torquemada execrando, quem quer que sejas tu, sicário, alma patibular, desprezo dos homens!
Jogaram as últimas; é preciso que se exija unha por unha e dente por dente.
A escumalha da Póvoa, essa quadrilha de sicários e de selvagens que praticou o assalto tem mandante, tem guarda-costas, tem alguém interessado no abominável feito.

Neste delirante escrito de ódio, que lembra Saramago, está o anticlericalismo em estado mais ou menos puro.
Casério e Revachol foram dois anarquistas guilhotinados na França em finais do século XIX. A que propósito vinham aqui eles?
Torquemada foi um conhecido e terrível inquisidor espanhol (mas era bem menos terrível do que se diz). Que vem ele aqui fazer?
Que era “a horda capitaneada pelo Prior da Póvoa”?
Difamam-se assim as pessoas, sem provas, antes dos tribunais se pronunciarem? Uns podem dizer tudo e outros não têm direito a dizer nada?
Os piores inimigos da República eram os seus insensatos amigos.

Que o ataque à casa do Administrador fora um primeiro desafio, e até ousado, ao novo establishment republicano, não havia dúvida. Mas não deixara indícios que permitissem identificar e incriminar os seus autores.
De resto, se o atentado ocorreu à uma da manhã e não fez o visado sequer levantar-se da cama – e ele tinha família – e só à tarde enviou o telegrama, é porque não se apoquentou muito.
Como, por toda a evidência da investigação levada a cabo, o desacato não foi provocado por gente ligada a O Poveiro, a conclusão parece ser a de que foi gente republicana que queria incriminar o Prior. Até a violência com que falaram parece denunciar perfídia.

Mas se a acusação da imprensa ao Prior foi brutal, irresponsável e perpassada de elaboradas flores de estilo, a derrota vai ser proporcionalmente estrondosa.
O Poveiro começou por responder às acusações em tom comedido, mas, depois de passado o pior da borrasca, usou um tom muito duro:  homens da sua redacção tinham sido humilhados, estiveram presos e incomunicáveis cinco dias, por isso exigia-se agora uma desafronta.


Ilustração 5 Fragmento duma edição d’O Poveiro a exigir desafronta pelos enxovalhos sofridos na sequência do ataque à casa do Administrador.
O feitiço voltava-se contra o feiticeiro, contra Tomás dos Santos, contra a sua fúria lupina insensata, contra A Propaganda, contra O Comércio, contra O Intransigente. Eles meteram a viola ao saco e emudeceram.

No fim do mês, o cargo de administrador passava para Santos Graça. Como o Liceu ameaçava fechar por dificuldades económicas, o professor provisório Tomas dos Santos foi despedido.
Não deixava boa memória o professor-administrador.
Mas ele ainda tentou a sua desforra.

Apêndice
A. No inquérito sobre o Complô Monárquico
O meu título não prometia mais do que o que já disse, mas paga a pena ir um pouco além.
Embora Tomás dos Santos tenha deixado de prestar serviço no Liceu poveiro no final do ano lectivo de 1910-1911, ainda se encontrava na Póvoa em princípios de Outubro, quando foi aberto um inquérito sobre a eventual participação de gente da vila no complô monárquico recentemente abortado no Porto[1].
A ala mais radical do republicanismo fora arredada do poder concelhio e era agora administrador o matreiro António dos Santos Graça; mas vão ser os radicais republicanos os depoentes do inquérito. As suas declarações têm dois alvos principais: o Prior, os seus colaboradores e o seu jornal, por um lado, e o novo Administrador, por outro. As do Tomás dos Santos não são excepção.


Ilustração 6 Neste número de 9 de Agosto de 1912, O Poveiro informa que sai censurado.
Segundo ele, os elementos que combatem a República “contam com o apoio incondicional do clero e de quase toda a população do concelho, que sofre da terrível educação jesuítica”. Tomadas à letra, estas palavras significam que quase ninguém já queria a República, o que devia ser verdade – mas a culpa era dele, Tomás dos Santos, e de outros como ele.
Também é curioso que os jesuítas continuem a ensombrar-lhe a mente. Mas não se tratava de jesuítas, não, ele e os seus pares é que viam mal. Os jesuítas estavam muito longe, mas as pessoas permaneciam fiéis à Igreja, e isso é que ele não tolerava. Tomás dos Santos também parece não ler bem O Poveiro. O Prior nunca negara a sua adesão à República, recusara-se foi a aceitar as suas posições discriminatórias, atentatórias dos mais elementares direitos à expressão livre. A República não era dona da verdade.

B . Um discurso de Tomás dos Santos

No primeiro aniversário da República, Tomás dos Santos, que ainda se encontrava na Póvoa, discursou para os seus amigos radicais. O que quis foi desfechar um virulento ataque à Igreja. Lá foi chamada a Inquisição à baila e uns desmandos recentes de frades e freiras franceses. Para ele, isso representava toda a Igreja e a sua história e por isso proclama a sua indignação contra ela. Esquecia-se, por exemplo, que na Póvoa onde vivia não havia nada de semelhante.
Aliás, os seus antepassados ideológicos, desde a Revolução Francesa à Comuna, bastante recentes, tinham uma folha de serviço com páginas muito negras. Mas tudo isso esquece o antigo pastor de Carregal do Sal.

Ao tempo do primeiro administrador republicano do concelho, João Pedro de Sousa Campos, aconteceu a grande humilhação da expulsão dos membros das Ordens Religiosas: os Padres Jesuítas, as Irmãs Doroteias e as Irmãs de Caridade; isto acarretou a expropriação do Colégio das Doroteias e a suspensão das obras da Basílica. Sob a administração de Tomás dos Santos, a perseguição religiosa esteve na ordem do dia, bem viva, e a acção dos seus espiões conduziu ao encerramento de dois colégios católicos. Sob a administração de Santos Graça, que se lhe seguiu, O Poveiro começou por ter quatro processos, que venceu, foi adiante censurado primeiro e depois silenciado e o Prior foi enviado para o exílio.
Destes três administradores não sei qual terá sido o mais fraco. Vejo-os todos ao mesmo nível.
A República foi arrogante, cruel, prepotente, tirânica; expulsou, exilou, enxovalhou. Criou no país um conflito humilhante e desnecessário – e, que eu saiba, nunca foi dada a devida reparação às vítimas das suas arbitrariedades[2].
Tanto quanto entendo, e o entende muita gente, a ela se deve atribuir a culpa de ter havido o 28 de Maio e o Estado Novo que lhe sucedeu. Mergulhada na sua cegueira, depois queixou-se muito. Mas sem razão: o novo poder defendia-se com a arma que ela usara.


Ilustração 7 Fragmento duma primeira página d’O Poveiro censurada sob a administração de Santos Graça.


Termino com umas frases que escreveu em 10 de Setembro de 1945, na Idea Nova, o professor do Liceu José Luís Ferreira, onde expôs a sua perspectiva sobre a Primeira República. Depois de mencionar “as mi­sérias e degradações a que Portugal foi levado em dezasseis anos de loucuras e crimes hedion­dos”, continua:

Mas os velhos, que bem conhe­ceram tudo o que se passou, des­de 5 de Outubro de 1910 até 28 de Maio de 1926, os que já têm a experiência dura e triste de tão desgraçado tempo que a nossa que­rida Pátria atravessou, esses... es­ses não podem ter a desculpa que aos novos se deve conceder. E não podem tê-la, porque ou foram colaboradores responsáveis dos crimes que desventuraram Portugal (e devem só penitenciar-se), ou foram vítimas inocentes e incapazes de evitar as desgraças da Pátria (e de­vem estar curados e desiludidos até à saturação).
Mas, ao que se lê e se ouve di­zer, parece que os colaboradores das desditas nacionais continuam impenitentes; antes querem acumu­lar novas responsabilidades tremen­das com seus maus conselhos aos novos, a quem desejam enganar, infelicitando-os e à Nação.



[2] Uma proposta radical de reabilitação do bom-nome destas pessoas passaria por alterar o nome das ruas, avenidas e praças da República ou dos seus defensores para o de ruas, avenidas ou praças das suas vítimas.

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