domingo, 24 de julho de 2011

Prof. José Luís Ferreira

O Prof. José Luís Ferreira ensinou no Liceu de Eça de Queirós entre 1919 e 1954. Comecei a ver referências a ele apenas quando estudei a biografia do seu amigo médico Abílio Garcia de Carvalho: estiveram juntos na fundação do escutismo poveiro e muito adiante na festa em que ao Dr. Abílio foram entregues as insígnias da Comenda de Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno. Mas o relacionamento entre eles foi sem dúvida mais continuado: homens da mesma geração, uniam-nos muitos pontos de vista comuns. Quando em 1934 aquele médico profere no Liceu a Lição de Sapiência, na abertura do novo ano lectivo, certamente fê-lo a convite do Prof. José Luís Ferreira; de facto, hão-de ter estado lado a lado em muitas lutas.
O Prof. José Luís Ferreira também não era poveiro: era barcelense, de Cossourado (o Dr. Abílio Garcia de Carvalho era natural de Mouquim, Vila Nova de Famalicão); chegou à Póvoa sensivelmente no mesmo ano em que o seu amigo médico, que curiosamente vinha então de Barcelos. Não sei se participou na II Guerra Mundial, mas correu as sete partidas: fez o secundário em Viana e frequentou a Universidade em Lisboa; já como professor, antes chegar de à Póvoa, esteve nos Açores, em Chaves, em Beja, em Braga. No Liceu de Eça de Queirós, ensinou Latim, Francês, Português e talvez ainda Grego; durante vários anos, foi bibliotecário.
Até nós chegaram um livro seu e dezenas de artigos que publicou em vários jornais. Durante muitos anos escreveu para o jornal poveiro O 28 de Maio. Basicamente, desenvolveu aí duas rubricas, uma de Linguística e outra onde tratou o tema Folclore. Na primeiro saíram várias dezenas de artigos, na segundo apenas uns nove. Com base no trabalho desenvolvido na rubrica de Linguística, organizou depois um pequeno livro que intitulou Ortografia Portuguesa Vulgarizada; de facto o título tem uma extensão quase barroca: «Ortografia Portuguesa Vulgarizada para Portugueses e brasileiros (Ortografia Oficial). Regras e exemplos práticos, com algumas explicações teóricas». São 48 densas páginas onde este professor de Português expõe com minúcia o tema que se propôs. Foi editado em 1929 pela Tipografia Povoense, como na altura aconteceu com muitos de diversos autores.
O Prof. José Luís Ferreira foi durante anos bibliotecário do Liceu. Muitos dos livros que constituem hoje a Biblioteca Dr. Luís Amaro de Oliveira dever-se-ão aos seus cuidados.
Ouçamos algumas suas palavras do artigo 7 da rubrica Folclore, em que se refere à sua publicação:

(…) o pobre autor foi publicando artigos de doutrina filológica na secção Linguística, que reuniu num opúsculo que baptizou Ortografia Portuguesa Vulgarizada. Neste pequeno trabalho estão condensados os principais e fundamentais preceitos de ortografia (e também de recta pronúncia), do modo mais claro e acessível e simples que pode ser, e já se não poderá alegar ignorância de tal doutrina com o argumento de que não existia condensada em volume baratinho.
São apenas cinco regras de acentuação e três de pronúncia – o bastante para toda a gente poder escrever e falar razoavelmente o português. Mas, a par disto, há muita coisa “útil a quem aprende e até a quem ensina”. (Não pareça isto vaidade ou falta de modéstia, porque é a súmula do juízo feito por alguns Mestres dos mestres e por bastantes ilustres colegas dos vários liceus do país, que nos honraram com sua correspondência a tal respeito).

Escreveu ainda para a Idea Nova e para o Diário do Minho. Na sequência de dois artigos saídos neste diário, um tal A.L. fez-lhe uns reparos na Voz da Póvoa. O Prof. José Luís Ferreira respondeu-lhe em três números seguidos do Idea Nova sob o título de «Gramática Parda», metendo a ridículo o saber do seu contendor. Por fim veio a verificar que este era o seu amigo P.e Alexandrino Letuga…
Como entretanto este sacerdote faleceu, o Prof. José Luís Ferreira alterou o seu título para «Gramática Morena» e rematou a polémica com mais dois artigos.
Ou porque as responsabilidades de pai de família o desaconselhassem ou por razões profissionais ou qualquer outro motivo, certo é que não se comprometeu muito directamente com a política; mas isso não o inibiu de escrever alguns artigos bem curiosos em que fundamenta as suas simpatias pelo Estado Novo.

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