quarta-feira, 27 de julho de 2011

Início


A actual Escola Secundária de Eça de Queirós chamou-se noutros tempos Liceu Nacional da Póvoa de Varzim e antes Liceu de Eça de Queirós. Ao longo dos 100 anos da sua história, passaram por lá professores muito ilustres. Foi o caso do P.e Afonso Soares, de Tomás dos Santos,  Leonardo Coimbra, Hernâni Cidade, Salgado Júnior, Vasques Calafate, José Luís Ferreira, Paulo de Cantos, Mário Fiúza, P.e Franquelim Neiva Soares, P.e João Marques, Luís Amaro de Oliveira, Flávio Gonçalves, Énio Ramalho, Mons. Manuel Amorim, o bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves, e  muitos outros. Vamos dar aqui notícia de alguns.
.
Telegrama enviado à edilidade poveira a anunciar a criação do Liceu, segundo o Estrela Povoense de 24 de Julho de 1904.


Brasão na fachada do magnífico edifício actual do antigo Liceu. Este edifício, construção do Estado Novo, foi inaugurado em 1952, contando no acto com a presença de António Ferro, o homem que premiou a Mensagem de Fernando Pessoa e que tinha sido o editor de Orpheu, a revista do Modernismo.


O Liceu em construção (1949).

Prof. Énio Ramalho

Vida e obra

O Prof. Énio da Conceição Ramalho nasceu em 1916 e é ainda vivo. Foi um homem de múltiplos ofícios: professor, músico, pintor, etc. Publicou vários livros, mas sobretudo uma Gramática de Língua Inglesa que teve numerosas edições.
Ensinou no Liceu, primeiro, de 1957 a 1962, e depois, de 1971 a 1985, num total de 19 anos, tendo-se aposentado por limite de idade em 1985. Em 1975-76, foi "Encarregado da Direcção" do Liceu, juntamente com o Prof. Orlando Taipa.


A informação biobibliográfica que se segue é da autoria de Maria Isabel Correia Martins e recolhi-a do livro Reencontro com o Dr. Luís Amaro de Oliveira, o Professor, o Amigo, ed. da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, 2001, páginas 84-85.

Fez a escola primária e o liceu em Macau, terra da sua naturalidade. Partiu para Coimbra em 1935, ano em que ingressou na Universidade, onde cursou Filologia Germânica, tendo concluído o curso em 1939 com distinção. Obteve o prémio do Instituto Britânico, como o melhor aluno de Inglês no final do curso. Defendeu tese sobre o tema "Aldous Huxley - o Intelectual Perante os Homens e a Vida", trabalho que a Faculdade de Letras da mesma Universidade publicou em separata da "Biblos", revista cultural organizada com colaboração dos professores da Faculdade. Frequentou o Estágio Pedagógico em Coimbra, no Liceu D. João III.
Ingressou no ensino no ano de 1942. Em 1947, a convite do Instituto Britânico, frequentou um curso de especialização destinado a professores da Língua Inglesa, no qual tomaram parte representantes de dez países da Europa e do Norte de África. O curso teve como sedes Liverpool, Londres e Oxford.
Leccionou durante anos em vários liceus do país, entre eles, o Liceu Nacional da Póvoa de Varzim, de 1957 a 1962; já então, fazia do teatro uma actividade paralela ao ensino, tendo levado à cena Guerras do Alecrim e Manjerona, de António José da Silva, com alunos do 5.º ano.
Em 1962, concorreu para o Liceu de Macau, onde foi nomeado Reitor e, no ano seguinte, Chefe dos Serviços de Educação, regressando, de licença à Metrópole em 1967. Desligou-se do quadro ultramarino para retomar o exercício no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa. No ano de 1972, concorreu a um lugar no Liceu da Póvoa de Varzim, onde leccionou até 1985, ano em que se aposentou.
Durante a sua actividade docente publicou algumas obras que a seguir se indicam:

Aldous Huxley - o Intelectual Perante os Homens e a Vida (tese de licenciatura), 1941;
Gramática da Língua Inglesa (para o ensino secundário), Porto Editora, 1958;
Guia de Conversação Inglesa, Porto Editora, 1959;
Dicionário Essencial Inglês-Português, edição do autor, 1961;
Coexistência Cultural (subvencionada pelos Serviços de Turismo de Macau), 1964;
A Princesinha na China (história para crianças e adolescentes), edição do autor, 1981;
Dicionário Estrutural Estilístico e Sintáctico da Língua Portuguesa, Lello & Irmão, 1985;
O Menino das Estrelas - Entre os Doutores (1998).

Obras Traduzidas:

A Psicologia - Estudo do Comportamento, de William Macdougal, edição França Amado, 1938, Coimbra;
Método e Teoria na Psicologia Experimental, de Charles Osgood, edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 1972;
Os Dois Parentes Nobres, de William Shakespeare e John Fletcher, Lello & Irmão, 1974;
Sonetos Completos, de William Shakespeare, Lello & Irmão, 1998.

Ultimamente tem-se dedicado à música, o que, aliás, já fazia desde muito novo, tendo iniciado os seus estudos de solfejo e de órgão sob a orientação do Rev. P.e Mateus das Neves, director da "Schola Cantorum" da Igreja de S. Lourenço, de Macau. Posteriormente, estu­dou Harmonia e Composição. É autor de composições para solo e coro e também para peças instrumentais, especialmente violino e piano. Participou no 1.º Festival da Canção Poveira em 1962, tendo obtido o 1.º prémio com a canção "Saudades do Mar" com que abrem e fecham as emissões diárias radiofónicas da época balnear, na Av. dos Banhos, posteriormente gravada em disco. Outras composições suas foram gravadas em disco e cassete, como por exemplo, "Santa Maria dos Mares", divulgada pelo cantor Luís Piçarra, "Na Lapa os Sinos Tocam", em cassete, interpretada pelo Coro da Lapa. Participou, ainda com uma composição, numa festividade realizada na Escola Secundária Rocha Peixoto intitulada "S. Pedro nas Escolas".
No que se refere à pintura, participou numa exposição colectiva local, no salão do Casino da Póvoa e fez a sua primeira exposição individual no Salão do Turismo da Póvoa, em 1991. Em 1995, participou na exposição comemorativa dos 150 anos do nascimento de Eça de Queirós, realizada na Filantrópica, com o seu quadro "O Mandarim". É autor, entre outras obras, de estampas com Trajos Poveiros, recentemente adquiridas pela Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, reproduzidas, há pouco, em postais. Em 1997, participou numa exposição de arte realizada no salão dos Bombeiros Voluntários de Vila de Conde, com uma escultura denominada "Cristo das Catacumbas".

Mons. Manuel Amorim

A minha evocação

O Mons. Manuel Amorim, que só veio para o Liceu em 1991, dois anos após ele mudar de nome, para Escola Secundária de Eça de Queirós, era cerca de 20 anos mais velho que eu; ensinou lá até 2000; convivi longamente com ele, pois era de conversa agradável e culta, e todos, jovens ou de mais idade, sentiam prazer em ouvi-lo.
Durante anos, escrevemos para o mesmo jornal, O Notícias da Póvoa de Varzim; na Escola colaborámos nuns colóquios que lá promovi e a que ele deu oportuna e sábia participação (colaboraram também a Prof.ª Conceição Nogueira e o Prof. António Azevedo). Alguns dos temas foram depois apresentados na Filantrópica.
Em 2001, ele falou de «O Dr. Sacra Família – um pedagogo poveiro miguelista». Recordo que uma professora de Inglês, que tinha ido muitas vezes a Inglaterra, ficou então muito surpreendida ao saber que o Dr. Sacra Família estivera na origem duma diocese católica nos arredores de Londres.
Um outro tema que o Monsenhor tratou foi o das origens da Póvoa e do senhorio que sobre ela deteve D. Afonso Sanches, fundador do Mosteiro de Santa Clara de Vila do Conde, tema que desenvolve na sua Póvoa Antiga.

Mons. Manuel Amorim

O Mons. Manuel Amorim escrevia muito bem, com graça e com leveza; e tinha prazer em falar. Sobre isto paga a pena lembrar o que lhe ouvi uma vez na Casa da Memória da Póvoa: contava ele que, ao tempo em que passara pela Câmara da Póvoa de Varzim, quando precisava de alguém para uma intervenção cultural pública, se dirigia sempre a certo poveiro. Um dia, agradecia-lhe o Monsenhor a disponibilidade quando ele retorquiu: “Isto é como uma doença: cura-se falando”. O dito podia sem dúvida aplicar-se ao Monsenhor.

Biografia

Servindo-me dum texto que vem na última edição de A Póvoa Antiga, vou apresentar uma breve biografia e a lista das obras do Monsenhor. À biografia e à lista vão ser feitos alguns acertos e acrescentos.
O seu nome completo era Manuel José Gomes da Costa Amorim e nasceu em 23 de Setembro de 1930 no lugar da Giesteira, Póvoa de Varzim. Frequentou a Escola Primária do Conde de Ferreira no Largo das Dores. Em 1941 ingressou nos seminários Diocesanos de Braga, onde se ordenou sacerdote em 15 de Agosto de 1953. Iniciou a carreira eclesiástica como coadjutor do Pároco de Fafe, sendo em Setembro de 1954 nomeado Pároco de Touguinha e Argivai, do Arciprestado de Vila do Conde e Póvoa de Varzim, e transferido para a Paróquia de Beiriz, do mesmo arciprestado, em Outubro de 1956; aí se manteve ao serviço como pároco até ao seu falecimento. Entre 1993 e 1998 exerceu o cargo de Arcipreste e em Agosto de 1995, por proposta do Arcebispo de Braga, foi aceite entre o número dos capelães do Papa João Paulo II, donde lhe adveio a dignidade de Monsenhor.
Em Outubro de 1954 foi nomeado professor de Educação Moral e Religiosa Católica para a Escola Secundária de Rocha Peixoto e aí continuou até 1976, ano em que suspendeu a actividade lectiva. Por convite dos Superiores hierárquicos voltou ao ensino em 1983, leccionando na mesma área, agora na Escola Secundária de José Régio, de Vila do Conde. Em 1985 regressa à Escola Secundária de Rocha Peixoto e em 1990 concorre à vaga de efectivo na Escola Secundária de Eça de Queirós, da Póvoa de Varzim, donde se aposentou no ano 2000.
Prestou à Comunidade Poveira outros serviços, desde dirigente desportivo – Varzim Sport Club, nas épocas de 1962-63 –, passando pelo serviço autárquico, como Vereador do Pelouro da Cultura entre 1964-67, até Presidente da Assembleia-Geral da Cooperativa Agrícola e Leiteira da Póvoa de Varzim na década de 70.
Ainda nos anos cinquenta aparece na imprensa como noticiarista, mas é após a sua passagem pela Câmara que vai dedicar-se à investigação da história local: publica na imprensa os primeiros frutos desse labor e colabora assiduamente no Boletim Cultural que a Câmara da Póvoa de Varzim, por sua iniciativa, em 1964, passou a reeditar sob a direcção do Dr. Flávio Gonçalves, depois de vários anos suspenso. Com a morte de Flávio Gonçalves (1987) tomou, por convite da Câmara, a direcção daquela revista, que manteve, regularmente, a sua publicação até ao presente.
Exprimindo a gratidão pelos múltiplos serviços que, como autarca, professor e investigador da história local, prestou à Póvoa de Varzim e ao seu concelho, a Câmara Municipal deliberou atribuir ao Mons. Manuel Amorim, em 24 de Junho de 1995, a Medalha de Reconhecimento Poveiro.
Faleceu em 7 de Maio de 2006.

A obra mais notável do Mons. Manuel Amorim será porventura o sábio livro Póvoa Antiga.

Obra

No Boletim Cultural, o Monsenhor desenvolveu pelo menos os seguintes temas:

1969-72 - «Duzentos e cinquenta anos da vida da freguesia de Santa Eulália de Beiriz».
1973 - «Os Bonitos de Amorim. Primeiro capítulo da história de uma família benemérita».
1973-74 - «A Vila de Rates no século XVIII».
1980 - «Sobre a condição de poveiro atribuída a um Bispo de S. Paulo».
1981 - «Um emigrante de Beiriz fundador da cidade de Icinha (Espírito Santo - Brasil)».
1984 - «Uma pendência entre a Madre Abadessa de Vila do Conde e os Comerciantes da salga da Póvoa de Varzim».
1987- «O caderno de Alves Anjo (1822-1830). Subsídios para a história do nosso Hospital».
1989 - «Flávio Gonçalves, historiador poveiro».
1990 - «Amador Álvares, piloto da carreira das Índias».
1991- «Camilo e Sena Freitas. Uma amizade que a Póvoa viu nascer».
1992 - «A Companhia de Jesus na Póvoa de Varzim – I».
1993 - «Os antigos Paços do Concelho da Póvoa de Varzim».
1994 - «As Visitações à Paróquia de S. Pedro de Rates».
1995 - «O Nascimento e o Baptismo de Eça de Queirós».
1996-1997 - «A Companhia de Jesus na Póvoa de Varzim – II».
2000-01 - «As anotações às “Correcções da História Local” de Fernando Barbosa».
2002 - «A Companhia de Jesus na Póvoa de Varzim» e «O Culto Mariano no Arciprestado de Vila do Conde e Póvoa de Varzim».
2003 - «A Vila de Rates no tempo de Tomé de Sousa».

Para além destes trabalhos, que nalguns casos saíram depois em volume, registam-se outros editados em revistas ou por iniciativa particular. Deles se destacam:

1972 - «A Igreja Paroquial de Beiriz. Notícia histórica comemorativa do seu 1º Centenário (1872-1972)».
1978 - «As últimas obras do mosteiro de S. Simão da Junqueira».
1977 - «Apontamentos para a história da nossa Corporação de Bombeiros».
1983 - «Aver-O-Mar e a sua Igreja».
1987 – «Confraria de Nossa Senhora do Rosário. Memória do tricentenário (1686-1986)».
1988 - «A antiga Colegiada de Vila do Conde».
1989 - «A Paróquia e os Párocos de Santa Maria de Terroso».
1990 - «S. João Baptista, uma devoção de Camilo?»
1995 - «O Concelho da Póvoa de Varzim. Freguesias. Súmulas».
1985 - «A Póvoa Antiga. Dois estudos sobre a Póvoa de Varzim, Séc. X-XVI».

Nestas listas não se contêm os muitos artigos que publicou na imprensa poveira e no jornal paroquial de Beiriz.

Em 2003, foram editados dois livros seus, o longo estudo A Póvoa Antiga. Estudos sobre a Póvoa de Varzim, séculos X-XVI e O Culto Mariano no Arciprestado de Vila do Conde e Póvoa de Varzim.

domingo, 24 de julho de 2011

Prof. Luís Amaro de OLiveira

Do Prof. Luís Amaro, que conhecemos pessoalmente e com quem convivemos ficou-nos a excelente imagem dum verdadeiro colega, generoso, de postura bem-disposta, embora ele fosse mais velho quase 30 anos. A sua delicadeza era natural mas do mais elevado grau.
O Dr. Luís Amaro, como todos o identificavam, nasceu em Braga, na Quinta de S. Tecla, a 7 de Julho de 1920.
Concluiu a licenciatura em Filologia Românica na Universidade Clássica de Lisboa onde foi aluno de Vitorino Nemésio, Delfim Santos e Jacinto do Prado Coelho. Foi amigo pessoal de Sebastião da Gama.
A sua actividade lectiva, desenvolveu-a em várias escolas, sendo a última delas (1965-1990) a Escola Secundária de Eça de Queirós, ex-Liceu Nacional da Póvoa de Varzim. Faleceu em 16 de Janeiro de 1991.
Para a história da literatura, deixou um trabalho de investigação biográfica original sobre Cesário Verde. Na área da didáctica, distinguiu-se por ter preparado edições escolares de várias obras literárias que gerações quase inteiras de estudantes portugueses manusearam.
O Dr. Luís Amaro integrou o conhecido Grupo do Régio, que se reunia num café da Póvoa de Varzim, o Diana-Bar. Nesse grupo figuraram personalidades como o próprio Régio, Manuel de Oliveira, Agustina Bessa-Luís, etc.
A Escola Secundária de Eça de Queirós homenageou o Dr. Luís Amaro de Oliveira com a publicação dum livro intitulado Reencontro com o Dr. Luís Amaro de Oliveira, o professor, o amigo e colocou-o como patrono da sua biblioteca.
O nome deste professor figura no Dicionário dos Educadores Portugueses e na Infopédia.
Para o livro com que a Escola Secundária de Eça de Queirós o homenageou, escrevemos então este pequeno texto:


O que mais admirei no Dr. Luís Amaro foi a sua delicadeza, em especial para com os colegas mais jovens, como era o meu caso. Não havia nisso fingimento; era uma atenção natural, que mais acentuava em nós o respeito que lhe dedicávamos. Consultei-o muitas vezes sobre temas do nosso ensino comum.
Mas sentia-se que uma mágoa funda lhe turbava o feitio prazenteiro, dado a convívio.
Não é muito o que sabemos sobre o Dr. Luís Amaro de Oliveira. Mas com ele, ao longo de uma boa dezena de anos, na Escola donde saiu para a reforma e por isso não o esqueceremos facilmente.
O trabalho que mais lhe honrou o nome foi com certeza o que realizou sobre Cesário Verde. Este original poeta oitocentista, apesar do interesse que por ele teve Fernando Pessoa, caminhava, ao que parece, para um apagamento imerecido, quando um trabalho do Dr. Luís Amaro, a ele dedicado, deu contributo importante para o trazer à tona do interesse da crítica. Os seus estudos sobre este poeta vêm citados no Dicionário de Literatura que o Prof. Jacinto do Prado Coelho dirigiu e também na História do Literatura, de António José Saraiva e Óscar Lopes.
Jacinto do Prado Coelho atribui algures também ao Dr. Luís Amaro o mérito de ter sido o primeiro a valorizar aspectos da Mariana do Amor de Perdição. Aliás, esse ilustre professor teve noutras ocasiões palavras de muito apreço para o Dr. Luís Amaro.
Em colaboração com Feliciano Ramos, publicou o Dr. Luís Amaro, nos anos sessenta, ao menos duas volumosas antologias literárias, das primeiras com certeza que a juventude teve ao dispor. Mas os seus trabalhos com maior divulgação escolar terão sido os que dedicou às Viagens no Minha Terra, ao Frei Luís de Sousa, ao Amor de Perdição, aos Maias, à obra de Cesário, e que tornaram o seu nome familiar a várias gerações de estudantes portugueses.
Embora este sumário da sua obra possa ser injusto por breve e incompleto, já dele se pode concluir alguma coisa. Por exemplo: ele esteve, desde muito cedo e quase em exclusivo, ao serviço da juventude escolar; o seu nome projectou-se por todo o espaço nacional; outros terão deixado livros, mas ele não os deixou menos; não se serviu do Ensino Secundário como trampolim para outros voos (tendo mesmo recusado um convite do Dr. António Cruz para ir ensinar para a Faculdade de Letras da U.P.).
A acabar, permitimo-nos sugerir a conveniência duma palestra por pessoa idónea desse conhecimento de toda a dimensão do seu legado intelectual. Seria esta a mais digna, a mais justa e mais prestimosa homenagem que os seus admiradores lhe poderiam prestar.

Prof. José Luís Ferreira

O Prof. José Luís Ferreira ensinou no Liceu de Eça de Queirós entre 1919 e 1954. Comecei a ver referências a ele apenas quando estudei a biografia do seu amigo médico Abílio Garcia de Carvalho: estiveram juntos na fundação do escutismo poveiro e muito adiante na festa em que ao Dr. Abílio foram entregues as insígnias da Comenda de Cavaleiro da Ordem de S. Gregório Magno. Mas o relacionamento entre eles foi sem dúvida mais continuado: homens da mesma geração, uniam-nos muitos pontos de vista comuns. Quando em 1934 aquele médico profere no Liceu a Lição de Sapiência, na abertura do novo ano lectivo, certamente fê-lo a convite do Prof. José Luís Ferreira; de facto, hão-de ter estado lado a lado em muitas lutas.
O Prof. José Luís Ferreira também não era poveiro: era barcelense, de Cossourado (o Dr. Abílio Garcia de Carvalho era natural de Mouquim, Vila Nova de Famalicão); chegou à Póvoa sensivelmente no mesmo ano em que o seu amigo médico, que curiosamente vinha então de Barcelos. Não sei se participou na II Guerra Mundial, mas correu as sete partidas: fez o secundário em Viana e frequentou a Universidade em Lisboa; já como professor, antes chegar de à Póvoa, esteve nos Açores, em Chaves, em Beja, em Braga. No Liceu de Eça de Queirós, ensinou Latim, Francês, Português e talvez ainda Grego; durante vários anos, foi bibliotecário.
Até nós chegaram um livro seu e dezenas de artigos que publicou em vários jornais. Durante muitos anos escreveu para o jornal poveiro O 28 de Maio. Basicamente, desenvolveu aí duas rubricas, uma de Linguística e outra onde tratou o tema Folclore. Na primeiro saíram várias dezenas de artigos, na segundo apenas uns nove. Com base no trabalho desenvolvido na rubrica de Linguística, organizou depois um pequeno livro que intitulou Ortografia Portuguesa Vulgarizada; de facto o título tem uma extensão quase barroca: «Ortografia Portuguesa Vulgarizada para Portugueses e brasileiros (Ortografia Oficial). Regras e exemplos práticos, com algumas explicações teóricas». São 48 densas páginas onde este professor de Português expõe com minúcia o tema que se propôs. Foi editado em 1929 pela Tipografia Povoense, como na altura aconteceu com muitos de diversos autores.
O Prof. José Luís Ferreira foi durante anos bibliotecário do Liceu. Muitos dos livros que constituem hoje a Biblioteca Dr. Luís Amaro de Oliveira dever-se-ão aos seus cuidados.
Ouçamos algumas suas palavras do artigo 7 da rubrica Folclore, em que se refere à sua publicação:

(…) o pobre autor foi publicando artigos de doutrina filológica na secção Linguística, que reuniu num opúsculo que baptizou Ortografia Portuguesa Vulgarizada. Neste pequeno trabalho estão condensados os principais e fundamentais preceitos de ortografia (e também de recta pronúncia), do modo mais claro e acessível e simples que pode ser, e já se não poderá alegar ignorância de tal doutrina com o argumento de que não existia condensada em volume baratinho.
São apenas cinco regras de acentuação e três de pronúncia – o bastante para toda a gente poder escrever e falar razoavelmente o português. Mas, a par disto, há muita coisa “útil a quem aprende e até a quem ensina”. (Não pareça isto vaidade ou falta de modéstia, porque é a súmula do juízo feito por alguns Mestres dos mestres e por bastantes ilustres colegas dos vários liceus do país, que nos honraram com sua correspondência a tal respeito).

Escreveu ainda para a Idea Nova e para o Diário do Minho. Na sequência de dois artigos saídos neste diário, um tal A.L. fez-lhe uns reparos na Voz da Póvoa. O Prof. José Luís Ferreira respondeu-lhe em três números seguidos do Idea Nova sob o título de «Gramática Parda», metendo a ridículo o saber do seu contendor. Por fim veio a verificar que este era o seu amigo P.e Alexandrino Letuga…
Como entretanto este sacerdote faleceu, o Prof. José Luís Ferreira alterou o seu título para «Gramática Morena» e rematou a polémica com mais dois artigos.
Ou porque as responsabilidades de pai de família o desaconselhassem ou por razões profissionais ou qualquer outro motivo, certo é que não se comprometeu muito directamente com a política; mas isso não o inibiu de escrever alguns artigos bem curiosos em que fundamenta as suas simpatias pelo Estado Novo.

Breve antologia


I
Notas filológicas

«Idea Nova», 13/5/1939

O verbo arcaico leixar pas­sou para o moderno deixar, pela permuta de l por d.

*
Há tempos, ao regermos uma aula de Português de 6º ano, apareceu-nos in Ásia, de João de Barros, década 1, liv.º 4.º, a palavra leixava. Em nota a esta palavra diz o Sr. Dr. António Sérgio (prefaciador e anotador do texto adoptado):

Deixava. Leixar proveio do latim laxare (cp. o francês laisser).
Este verbo foi depois completamente substituído por­ deixar, cuja origem não se acha bem esclarecida; usam-se ainda desleixar, desleixado.

Ora a palavra já tinha sido estu­dada em autores adoptados no 5.º ano e nós já tínhamos dito a razão da mudança ou substituição. Mas, em todo o caso, aconselhámos os alunos a que acrescentassem mais o seguinte à nótula do prefaciador e anotador:
«Relaxe, relaxar, relaxado. O A. da nota ignora que o l se permuta com d, como em escala que deu escada; tecelão, tecedeira; lat. humilem que deu o português humilde (aqui desdo­brou-se o 1 em ld); Ulisses e Odis­seia, etc.»
Já depois de acabada a lição, ocorreu-nos que já tínhamos noutras ocasiões dito aos alunos que até na linguagem infantil se dá às vezes aquela permuta dos dois sons ou fone­mas e que já tínhamos citado outros mais exemplos de palavras de nossa língua.
Agora, na convicção de que pode­remos ser útil aos queridos alunos que vão fazer exame daqui por dois meses, apresentamos lista mais completa de exemplos da tal permuta, tanto em nossa língua, como até em latim e grego. Ei-la:
Grego Odysseus e latim Ulysseus ou Ulysses ou Ulixes, e português Ulisses e Odisseia; no português infantil duar, e no literário luar; no português infantil deitinho e no literário leitinho, e no infantil dindo e no literário lindo; no português popular de Barcelos inlústria, e no literário indústria; no prop. idem inxúlia ou inxulha e no literário enxúndia; no latim Aegidius e no português Gil; no latim vulgar jud’care e no português julgar; no latim vulgar med’ca e no português melga; no grego dákry ou dákryon e no latim lacryma ou lacrima, «a lágrima»; no grego dakryô, «chorar», e no latim lacrymo ou lacrymor, «der­ramar lágrimas, chorar», etc.
Também dos pontos cardiais Sul e Oeste resultou o colateral Sudoeste, como em francês, e nesta língua também Sudeste, de Sud+Est (que em bom português é Suest).
Encontramos ainda no popular de Barcelos lestre ou lestro, «ligeiro, rá­pido» ou «ligeiramente, rapidamente», do latim dexter ou dextrum; e o popu­lar lestreza, sinónimo de destreza, «ligeireza, desembaraço».
E, a propósito de escada e escala, ocorre-nos que o Se Manel, guarda do Liceu de Viana aí por 1900, chamava escaleira à escadaria do dito liceu (onde hoje é o Governo Civil).
Agora note-se: se qualquer patarata futurista ou modern styl (como dizem os alemães) disser que isto é ciência gramatical de 1900, como certos cretinos que por’i dizem criaturo, a gente ri-se deles e deixa-os com suas habilidades calinóides.
Mas também já no latim havia odor,-oris, «odor, cheiro», a par de olor,-oris, «odor»; e o Dicionário La­tino de F. Torrinha regista com esta observação: «Parece relacionar-se com odor». E, no mesmo dicionário, compa­rando o verbo odoro,-are..., «exalar cheiro», com o verbo odoror,-ari..., as significações são idênticas. E neles se pode ver também afinidade com odor e com olor.
Vê-se, pois, que deve estar bem esclarecida a origem do deixar, por permuta do l de leixar em d, embo­ra diga o contrário o Sr. Dr. A. Sérgio.

II
Os gatos e a previsão do tempo

«O 28 de Maio», 26/6/1928

Lendo há dias neste jornal a secção de «Sciências e Instrução», em que brilha a pena do meu prezado colega Dr. António Barbosa, cheguei à conclusão de que as ciências até hoje, a respeito de previsão do estado do tempo, não dão mais que uma antecipação de 24 horas.
E, segundo se viu em o n.º 5 do «28 de Maio», ainda é preciso a gente procurar os jornais de Lisboa, para ler o boletim meteorológico do Ministério da Marinha, para saber se há ou não baixas pressões nos Açores.
Já não falamos em dar os 30 centavos diariamente pelo jornal, o que ainda faz encarecer mais a decifração do problema.
Ora, a propósito, lembrei-me de que, sem desdouro para o meu prezado colega, nem para a Ciência mesmo com inicial maiúscula, minha avó paterna já sabia de véspera o tempo que ia fazer no dia seguinte, sem ler os boletins meteorológicos.
Minha avó sabia ler (antes até de se fundar «O Século» e mesmo «O Diário de Notícias», mas nunca lia os boletins meteorológicos do Ministério da Marinha (se é que eles já então se publicavam) para saber o tempo que estaria no dia seguinte. Bastava-lhe observar os gatos quando se lavam!
Esse barómetro é mais barato que o aneróide e que o de Torricelli, não se parte, e... ainda nos caça o ratos e... cria as pulgas.
Pois é verdade, sim, senhores.
Para o lado que estiver voltado o gato (ou a gata, não sendo das de estudante), ao lavar-se, é do lado que correrá o vento dentro de menos de 24 horas.
É observar o espinhaço do gato que se lava, ver que orientação ela tem, e sabe-se logo se no dia seguinte há sol ou chuva.
Sabido é que o vento N. Ou de L. Não dá chuva, ao passo que o de NO. W. Ou S (e as vezes SE.) dá sempre. Pois os gatos não enganam a gente.
Ah, os leitores riem-se? Pois eu também cito prova, como o meu colega. E para testemunhas são dos camaradas dele, um dos quais o meu caro amigo Sr. Capitão Esteves de carvalho.
Era no domingo de Pascoela, 15 de Abril, cerca das 23 horas. Eu vinha passando junto ao quartel militar e nem visa aquele meu amigo nem outro Sr. oficial que estavam à janela do primeiro andar. Foi o Cap. Esteves que me falou, depois que parei e nos saudámos. Estávamos nisto, quando o gato da tropa, no rés-do-chão sobre uns móveis – um lindo gato pardo, por sinal – se lavava por dentro da janela, ali mesmo nas minhas barbas, se lavava voltado para o Mar (mas ele lavava as dele). Interrompi os cumprimentos, do que pedi vénia ao Sr. Cap. Esteves, e disse:
- Quer o meu amigo saber o tempo que teremos amanhã?
- Pois quero, disse ele.
- Então saiba que temos chuva, porque está à minha frente um gato a lavar-se voltado para o Mar.
- Ah, sim?
- É verdade. Se não acredita, experimente amanhã, que depois me dirá se eu adivinho.
E completámos os cumprimentos, e eu disse ao capitão: Logo não se esqueça de ir à romaria da Senhora do Bom-Sucesso, que já se ouvem os foguetes. E despedi-me.
Não sei se ele foi à romaria, que o não vi lá. Fui eu com a família, e não esperei para o fim do dia para regressara a casa. Pelo caminho já apanhámos um chuveiro puxado a vento de W., quase ao pôr-do-sol.
E no dia seguinte?
No dia seguinte que o diga a Póvoa inteira e suas vizinhanças também – qual foi o lindo tempo que fez.
Mas a minha avó ainda conhecia mais processos para saber disto, sem assaltar as folhas. E o que ela sabia, sabe-o toda a gente do meu vizinho concelho de Barcelos.
Como meu colega Dr. Barbosa no imediato n.º deste jornal veio recordar o nosso congresso de Aveiro, do ano passado, em que se aprovou uma tese sobre folclore regional, continuaremos a expor aqui o que sabe o povo a respeito de meteorologia e doutras coisas interessantes. E ainda muita gente se há de rir.


III
Democracia, Liberdade... "Unidade" democrática"

«Idea Nova», 10/09/45


Andam ao rubro certos cérebros estonteados com as palavras Demo­cracia, Liberdade, Unidade De­mocrática, talvez ingenuamente crentes de que serão capazes de arrastar para si, quais magnéticas montanhas, a grande massa da população de Portugal. Não se pode afirmar que anda meio mundo a enganar o outro meio, como é frase feita de há séculos em nosso idioma, porque, na realidade, anda­rão apenas 5% de iludidos a jul­gar que enganarão os 95% res­tantes.
Mas façamos justiça a todos; acreditemos que na efervescência que surgiu nas últimas semanas, onde se notam nomes de muita gente nova que desconhece as mi­sérias e degradações a que Portugal foi levado em dezasseis anos de loucuras e crimes hedion­dos; em tal efervescência, dizía­mos, anda iludida muita gente mo­ça, muita gente generosa e de boa-fé, que não sabe quanto veneno en­cerram aquelas palavras mágicas de que enchem o peito e a boca cer­tos ilusionistas políticos.
Mas os velhos, que bem conhe­ceram tudo o que se passou, des­de 5 de Outubro de 1910 até 28 de Maio de 1926, os que já têm a experiência dura e triste de tão desgraçado tempo que a nossa que­rida Pátria atravessou, esses... es­ses não podem ter a desculpa que aos novos se deve conceder. E não podem tê-la, porque ou foram colaboradores responsáveis dos crimes que desventuraram Portugal (e devem só penitenciar-se), ou foram vítimas inocentes e incapazes de evitar as desgraças da Pátria (e de­vem estar curados e desiludidos até à saturação).
Mas, ao que se lê e se ouve di­zer, parece que os colaboradores das desditas nacionais continuam impenitentes; antes querem acumu­lar novas responsabilidades tremen­das com seus maus conselhos aos novos, a quem desejam enganar, infelicitando-os e à Nação.
Vamos nós avivar a memória aos velhos tontos e desmemoriados, em­bora lhes possamos acordar o re­morso que deviam ter por suas mal­feitorias; e vamos avisar caridosa­mente os novos generosos, para que se não deixem iludir pelo canto da sereia que procura arrastá-los para o abismo. É obra de misericórdia o “dar bom conselho e correcção fraterna”, e nós julgamo-nos com direito de o fazer, porque já temos bastante experiência; e até nos jul­gamos com o dever de aconselhar os novos, porque desde a nossa mo­cidade temos vivido com a juventude esperançosa e temos obrigação de a prevenir contra os embaidores.
Também nós fomos dos iludi­dos, desde os bancos do liceu; tam­bém nós ouvíamos extasiado o canto da sereia, que fazia ouvir harmoniosamente as palavras Democracia, Liberdade... e até Unidade Democrática ou União Republicana. E nós acreditáva­mos, por sermos inexperiente!
Quanta hipocrisia, quanta men­tira havia nas almas que proferiam tais palavras em altos gritos, isso é que nós ainda não tínhamos des­coberto. Mas descobrimos depois, graças a Deus, que o tempo che­gou para tudo.
Da primeira vez que, em Viana do Castelo, saímos para a rua, já noite fechada, já ceia comida, havia barulho, burburinho, gritos à li­berdade (era de inicial minúscula esta liberdade) e... morras aos Jasuítas!
Fomos na cauda daquela pro­cissão nocturna, com outros com­panheiros do caso, estudantes como nós; e fomos observar o que seria aquilo.
Ao chegarmos à residência dos Quesados, na Rua da Bandeira, ou­vimos muitos vivas à liberdade, muitos morras aos Jasuítas, e vimos partir os vidros das janelas dos Reverendos Padres da Companhia de Jesus, e vimos muitos po­bres operários apanhar excremento da rua e atirá-lo às portas e janelas daquela casa!
Mais tarde o jornal O Século chamaria à turbamulta que formava tais cortejos a cauda lamacenta de todas as demagogias; mas só foi mais tarde uns dez ou doze anos!
Nós estávamos presente àquele espectáculo, no ano 1.º deste século XX; mas ficámos triste e pen­sativo, sem atinar com os motivos daquela vilania!
Anos depois, fomos aprendendo melhor o que eram manifestações promovidas por doidos que dese­javam ser mentores das massas po­pulares, e fomos compreendendo melhor quanta hipocrisia abrigavam certas almas podres que enchiam a boca, e atroavam os ares, com as palavras liberdade, democracia, etc. Mais tarde... vimos os democráticos perseguir gente hon­rada e pacífica, levá-la no meio de escoltas para as cadeias ou para os comboios, para a meterem em masmorras de Lisboa e arredo­res, ou nos porões de navios; vimos certos democratas fechar tem­plos católicos, proibindo ao Povo Soberano que entrasse nessas igrejas, ou pudesse ouvir missa nas próprias igrejas paroquiais! (A igre­ja paroquial de Cossourado, Barce­los, esteve fechada bastantes me­ses, porque os amigos da Demo­cracia imperante se apossaram da chave, não consentindo que o Pá­roco exercesse no templo as fun­ções sacerdotais)!
Isto era a Democracia deles!.. A Liberdade.., essa foi depois, quando um dia o povo perdeu a pa­ciência, exigiu a chave da igreja aos déspotas que a tinham em seu poder, e... reclamou a liberdade para ouvir missa na sua paróquia. Como alguns dos tais democráticos ficaram quentes das coste­las, e como eram eles os detento­res da liberdade alheia, chamaram de Barcelos a G.N.R. e ... nesse domingo, pela tarde, apanharam em flagrante delito de motim quantos inimigos políticos isolados encontraram pelos caminhos da fre­guesia! (Note-se bem: foram apa­nhados, 4 a 6 horas depois de aberta a igreja, a um quilómetro, a dois, e a mais, em flagrante delito).
Claro está que, por amor à liberdade, foram esses cavalheiros dormir no quartel da Guarda, em Barcelos, às ordens dos democrá­ticos.
Depois foram julgados e condenados, porque houve testemunhas de vista que por ordem dos de­mocráticos, e por amor à liberdade, juraram a verdade democrática.
Que mais vimos nós? Vimos muitas coisas, e lemos outras no «Barcelense» (e reproduzimo-las no defunto «O 28 de Maio», de há anos).
Os amigos da Democracia e da Liberdade, possuidores do mando, vingaram-se dum adversá­rio que litigava com eles no tribu­nal de Barcelos, por eles quererem ter a liberdade de se apos­sarem dumas águas alheias; e me­teram esse adversário e um criado dele num curral da casa deles, onde tinha morrido um cavalo com mormo! A tragédia sofrida por essas vítimas deu muito que contar e que escrever, porque os tiranos... eram amigos da Liberdade e da Democracia só para si próprios, e tinham na mão a va­ra do poder.
Os presos não foram levados pa­ra a cadeia da Comarca; foram metidos em cárcere privado, du­rante vários dias, nos currais da casa do Administrador do Concelho, na aldeia, porque... então havia Liberdade, havia amor à Democracia!
Nós temos como dever de cons­ciência dizer estas verdades (que ficaram escritas e ainda se podem ler), para que os novos de boa fé, a mocidade heróica e bela, no dizer de Junqueiro, não se deixe encantar pela sereia, nem pelas cantigas de certas raposas manho­sas que os queiram iludir.
Quanto ao amor da Pátria, quanto ao civismo de muitos democratas, não queremos discutir isso, porque muitos deles nos merecem respeito e consideração pela sua sinceridade e honradez. Enten­derão mal, verão com vista estrá­bica o que julgam bem do povo, o bem da Nação? Talvez; mas que Deus os ilumine, os faça ver a direito e compreender com sã consciência o que mais convém a Portugal.
Por hoje só fica uma pequena amostra da Democracia e da Li­berdade.
Se calhar, depois virá mais.

Prof. Paulo de Cantos


Uma das pessoas ilustres e curiosas que ensinou no Liceu de Eça de Queirós foi o Prof. Paulo de Cantos.
Nasceu ele em Lisboa (Ajuda) em 13 de Março de 1893 e aí faleceu em 9 de Abril de 1979.
O Dr. Jorge Barbosa escreveu que o Prof. Paulo dos Cantos frequentou as Universidades de Lisboa, Porto e Coimbra. “Dotado de grande inteligência, curiosidade e ânsia de saber e possuidor duma prodigiosa memória, fez vários cursos, concluindo licenciaturas em Matemáticas, Desenho, Físico-Químicas, Ciências Naturais e Biológicas, Línguas Românicas (Filologia Românica), segundo julgo, e ainda Cursos de Belas-Artes e até tirou, entre outros, um diploma em Vitivinicultura”.
“Foi depois professor do ensino liceal, começando pelo Pedro Nunes (Lisboa) e posteriormente leccionou no Liceu Eça de Queirós, no qual passou a maior parte da sua vida professoral, chegando a ser reitor cerca de 10 anos”.

Original e extravagante retrato de Luís de Camões pelo Dr. Paulo de Cantos.

Sobre a bibliografia do Prof. Paulo dos Cantos escreveu ainda o mesmo articulista:
“É muito grande, complexa, original, singular e, porque não dizer, extravagante a bibliografia deixada pelo Dr. Paulo de Cantos”.
Além do Dr. Jorge Barbosa, que dedicou ao Prof. Paulo dos Cantos dois extensos artigos n’A Voz da Póvoa em 16/9/93 e 14/10/93, também sobre este antigo reitor da nossa Escola escreveu Ney da Gama Simões Dias, no Boletim Cultural Póvoa de Varzim, vol. XXXIII, de 1996/1997. Aí aproxima a produção artística do Prof. Paulo de Cantos do movimento alemão do Bauhaus. Parece-nos contudo que uma aproximação ao surrealismo não seria descabida.
A Escola possui alguns livros da autoria do Prof. Paulo de Cantos provenientes da biblioteca do Mons. Manuel Amorim.

Também original e extravagante esta capa dum livro do Prof. Paulo de Cantos. Os fundos-ouro em 10 línguas são a parte final das páginas onde de facto constam pensamentos em línguas muito diversas.

Devo o conhecimento desta notável figura ao meu amigo e colega Prof. Fernando Souto.



Mais imagens

Dado o interesse que actualmente está a merecer Paulo de Cantos, acrescentamos mais algumas imagens por ele criadas (para as ver melhor, clique uma vez sobre elas).






Nota - Na mensagem seguinte deste blogue encontra duas intervenções do Dr. Paulo de Cantos por altura da abertura do ano lectivo de 1934.

***

O Pe. João Francisco Marques


Conhecemos o Pe. João Francisco Marques (1929-2015), professor laureado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que antes ensinou no Liceu da Póvoa de Varzim. Ouvimos-lhe várias conferências e conversámos algumas vezes com ele particularmente. Ouvimos também sacerdotes que sobre ele se pronunciaram, alguns seus contemporâneos.
De tudo isto, formámos sobre este sacerdote uma opinião bastante negativa.
Alguns anos antes de falecer, já tínhamos decidido não o voltar ouvir, tal o desencontro entre o que ele afirmava e o que pensávamos. Era o caso principalmente do que ele explanava sobre Santos Graça, que consideramos um republicano fanático, perseguidor da Igreja na Póvoa e inimigo da liberdade, e que o Pe. João Marques exaltava. Mas escandalizámo-nos com outras afirmações dele.